Arquivo da categoria ‘Brasil’

A tragédia nossa de cada dia

fevereiro 5, 2012

Parte I:
Não é necessário pesquisar muito para lembrar de vários desastres recentes na cidade.  Para citar alguns, não faz muito tempo caiu um pequeno prédio no Catumbi;  uma explosão destruiu um restaurante no Centro;  o prédio semi abandonado do hospital do Fundão teve que ser implodido antes que caísse também.  No dia 30/01 um operário morreu e outros ficaram feridos em uma explosão no porto porque as redes fluviais estavam contaminadas com óleo. Por toda a cidade explodem bueiros por haver gás nas galerias do sub-solo. E não estamos nem falando de desgraças causadas por enchentes.

Assim, o desabamento do edifício Liberdade e de dois prédios vizinhos não chega a ser uma surpresa.  O Rio de Janeiro está sempre prestes a ser abalado por desastres de todos os tipos.  Como chegamos a este ponto? 

Falta seriedade antes, durante e depois destas catástrofes.  Logo após o recente desastre, alguém do governo saiu com a idéia de que precisamos de um “laudo” para todos os edifícios. Ele não lembra que o parque de diversões onde morreu uma jovem quando o brinquedo voou pelos ares também tinha um “laudo”. Segundo o site  ig, o CREA antecipou que a culpa deve ser das obras atuais no prédio.  Jornalistas, cidadãos e blogueiros podem “achar” a vontade mas o Conselho Regional de Engenharia deveria investigar seriamente primeiro e achar depois.

Metro na Av. Treze de Maio, 1975

Grandes acidentes geralmente acontecem em função de uma sequência de eventos, não por uma única causa. Portanto, se perguntarmos se a causa foi o abalo causado pelo buraco do metrô nos anos 70, a reforma do terceiro andar, a abertura de janelas na empena do prédio, o acréscimo de andares após a construção original ou o excesso de entulho no nono andar, a resposta provavelmente será que tudo isso contribuiu para a tragédia.
E em cada uma dessas fases haverá pitadas de irresponsabilidade, negligência e incompetência de proprietários, administradores, profissionais e autoridades. 

Alterações e obras (site ig)

Mas em última análise a culpa é da forma como nós, brasileiros, lidamos com assuntos sérios. De como escrevemos leis e as aplicamos.  De como fiscalizamos o cumprimento destas leis. De como apuramos responsabilidades e punimos culpados.  De como nosso legislativo é inoperante para o que realmente importa, de como nosso executivo não impõe a ordem e de como nosso judiciário faz de tudo para não concluir coisa alguma.

Parte II:
Caminhando pelo Centro quarta-feira passada, passei pela rua Treze de Maio e vi a operação final da remoção dos escombros dos edifícios no enorme vazio deixado no local. 

Vazio dos edifícios na 13 de maio

Teatro Municipal

Logo a seguir, observei o contraste da desolação com o Teatro Municipal, belíssimo, ainda com o frescor da recente reforma. Se este prédio centenário tivesse sido afetado, o prejuizo seria incalculável para o patrimônio cultural da cidade.

O pior é concluir que tivemos sorte nestas catástrofes.  Porque se ocorressem um pouco mais tarde, no caso da explosão no restaurante, ou um pouco mais cedo, no caso do Edifício Liberdade, estaríamos contando às centenas o número de perdas de vidas  humanas e de famílias atingidas. 

Mais adiante me deparei com a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Não dá pra ver o Palácio Pedro Ernesto sem relacionar os que o freqüentam com a nossa rotina de desgraças.

Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro

Mas há coisas mais importantes para nos preocuparmos porque o verão continua, o Porto ficará Maravilha, a Copa e as Olimpíadas vem aí e, afinal, logo teremos eleições… 

Fotos: Tragédia, Vazio dos edifícios da Treze de maio, Teatro Municipal e Câmara dos Vereadores ( Fevereiro de 2012), by Cariocaodorio. Metro, av. Treze de maio, by Paulo Moreira (fevereiro de 1975) - obtida no site Rio de Histórias, de Rômulo Lima – e  Desabamento no Rio de Janerio arte by site ig (Fevereiro de 2012).

Feliz Natal e próspero 2012

dezembro 17, 2011
Para todas as espécies do planeta

Foto by Cariocadorio: Papagaios de Natal (julho, dezembro/2011)

Rio eu amo, eu cuido

dezembro 3, 2011

Duas décadas perdidas acabam com a auto-estima de qualquer um.  Assim aconteceu com o Rio de Janeiro, símbolo maior dos tempos em que o Brasil navegava nas águas turvas da decadência.

Mal governado e cada vez mais partido, o Rio sobreviveu na informalidade da economia e viu se afastarem empresas, turistas e até a sua própria força cultural.   

Não adianta procurar culpados externos.  Precisamos nós mesmos, cariocas de todas as origens, aprender com a dura lição e resgatar o que a natureza nos outorgou para trazer de volta o esplendor do Rio de Janeiro de outras épocas.

O momento nos proporciona uma oportunidade ímpar. A economia deslancha, o Beltrame atua e a Copa e os jogos Olímpicos trarão uma revolução urbanística que não vemos desde o milagre brasileiro.  É preciso aproveitar este ambiente e começar a cuidar do Rio de Janeiro.

Há um sem número de senões neste ambiente mas não quero discuti-los agora. Esta discussão será parte do cuidar do Rio que busco estimular na iniciativa do movimento “Rio eu amo eu cuido” (visite o site aqui).  Que venham tantas outras neste sentido e que sejam todas elas por amor e respeito ao Rio de Janeiro.

Boa Vista, RR, uma grata surpresa

agosto 3, 2011

A cidade muito bem arrumada surpreende o carioca recém chegado.  Avenidas larguíssimas de mão única com enormes praças nos canteiros centrais seguem a urbanização planejada.  Não há problema de tráfego para os seus cerca de  250.000 habitantes. 

Orla Taunaman

Cachoeira do Paiva, Tepequem

Nas serras de Tepequem, a 200 Km da capital, encontra-se um clima agradável embora com uma infra-estrutura insípida para o turismo.  Depois de um bom banho em uma das várias cachoeiras admirando o belo cenário que a natureza oferece não há muito que reclamar do pouco que os estabelecimentos locais oferecem.

Infelizmente, não precisa muito tempo para perceber as mazelas típicas do resto do Brasil.  A classe política controla as oportunidades e  as leis são mais iguais para alguns que para maioria.
Nas palavras dos locais um pouco da realidade brasileira: 

  • “O parque Anauá ta abandonado.  O Governador Fulano de Tal fez o parque.  Quando outro entra deixa de lado. Quando ele volta ajeita pro seguinte abandonar de novo.” (sobre um enorme parque que poderia ser formidável).

Praça das Águas

  • “A Praça das Águas só teve água no início, depois roubaram as bombas e as válvulas.  Funciona uma vez ou outra mas roubam tudo de novo.” (a bela praça seria ainda mais bonita se os chafarizes funcionassem).
Boa Vista vista do Rio Branco
  • “O empresário fez uma pesquisa e disse que tinha mercado. Tem uns anos já e ele não vendeu tudo” … “Acho que o limite era de 3 ou 4 andares mas já não se fala nisso”  (sobre o inexplicável edifício residencial de 8 ou 10 andares  que se destaca na foto)

Lá no fim do Brasil não é muito fácil encontrar quem faça turismo. O  barqueiro explicou de forma simples e direta, com a experiência de uma vida inteira em  Boa Vista.

  • “Aqui não vem muito turista não. Só quem tem algum parente e vem visitar ou quem vem a negócios e aproveita pra conhecer é que faz turismo em Boa Vista”, afirmou ele durante o passeio pelo Rio Branco.   

Onça Pintada

Dias depois, finda a visita,  a constatação de que Boa Vista é uma cidade mais limpa, mais humana e com menos problemas sociais que outras capitais brasileiras. 

A cidade, entretanto, é administrativa e vive principalmente do salário pago aos empregados dos governos locais e federal.

Há um grande contingente do exército na região. Policiam as fronteiras, fazem incursões de treinamento na  selva e preparam o pessoal que vai para missões internacionais, como ao Haiti, De quebra ainda cuidam de animais, desde jandaias a onças de todos os tipos, antes de retorná-los à vida selvagem.  

Fotos by Cariocadorio: Orla Taumanan no rio Branco, Boa Vista; Cachoeira do Paiva, Tepequem, RR; Praça das Águas, Boa vista; Boa Vista vista do rio Branco; Onça pintada (julho de 2011)

Roraima; de Acácias, nióbios e Buritis

julho 31, 2011

Lá onde acaba o Brasil, cortada pela linha do Equador, há uma terra com dimensões parecidas com as da Romênia, da qual pouco se ouve falar.  Boa parte delas são literalmente terras indígenas (TI), como a Raposa Serra do Sol.

Buritis

São interessantes alguns fragmentos de frases escutadas de moradores locais, sejam filhos da terra ou que lá se fixaram ou apenas temporários.  Reproduzo aqui sem me comprometer em ser exato.   

“Aqui falamos Roráima e não Rorãima”

“Onde tem Buriti pode ter certeza que tem água.”

“Aqui não tem selva amazônica, a região é de lavrado, com poucas árvores.”

“Ficaram de financiar plantio nas novas terras mas só plantaram Acácias, que não servem pra nada.”

Plantações de Acácias

  •  “A economia é movida a contra-cheque. Aqui não tem indústria. O dinheiro que gira é de pagamento.  A maioria trabalha para o governo ”    
  • “Antes tinha mais produção de arroz e gado mas depois que deram a terra para os índios a produção foi diminuindo”
  • “O Quartiero foi quem ficou até o fim nas terras indígenas. Foi processado e depois acabou se elegendo deputado. Não precisou nem fazer força.” 
  • “Prometeram reassentar e indenizar o pessoal que perdeu as terras mas até hoje tem gente que não recebeu nada.” 
  • “Nos anos 60 a família tinha terras lá. Os índios tinham suas malocas e moravam nas terras. A convivência era pacífica mas depois começaram a incentivar para que eles tomassem as terras.” 

Terras de Roraima

  • “A região tem muito mineral como nióbio e outros que são importantes para a indústria eletrônica.  Sei lá, pode parecer teoria da conspiração mas aqui tem muito estrangeiro como missionário, pesquisador…esse negócio de demarcação pode ter a haver com interesses estrangeiros.”

Onde tem Buriti...

Em Roraima, como em todo o Brasil, as coisas de governo são mal feitas. Não importa se a terra deve ou não ser dos índios.  Conhecendo, porém, o que move as decisões tomadas em Brasília, é de se esperar que existam interesses além dos que possam ser apenas fazer justiça aos legítimos direitos das nações indígenas de Roraima.   

E de uma coisa podemos ter certeza: onde tem Buriti … tem água.

Fotos by Cariocadorio, julho de 2010.

Halloween é o cacete

julho 20, 2011
All inclusive?

Há poucos anos a pequena frase que dá título ao artigo tomou conta das ruas.  Chegava a incomodar como colovam os cartazes e sujavam tudo.  Mas fazia sentido. 

Sale de roupas

Globalização não é explicação pra tudo.  A falta de orgulho próprio e de auto-estima assola o brasileiro em geral. 
“É importado? Então é melhor”, por default (Opa!!!)

Os povos tendem a se achar melhor que os demais. São assim alemães, americanos, japoneses, franceses, argentinos etc.  O brasileiro, ao contrário, se acha definitivamente pior que os demais. Então desprezamos o que é nosso, particularmente a  cultura e o  produto brasileiro. Exemplos deste desdém pelo produzido no Brasil estão em todos os lugares. 

No dia a dia, o uso abusivo de palavras estrangeiras nos anúncios e propagandas é apenas um sinal.  Algumas vezes este recurso chega a ser ridículo. 

Interessante disque-delivery

As razões para este complexo coletivo de inferioridade certamente tem fortes raízes no comportamento das elites brasileiras. Há séculos nossas elites procuram se distanciar do “resto do povo” e encontrar no “estrangeiro” a sua real imagem e semelhança.  Não que o “resto do povo” seja muito diferente. Só que são exatamente as elites as que têm a obrigação de mudar o rumo das coisas e, obviamente, nunca o fizeram.     

Enquanto isso continuamos tendo entregas do tipo delivery, comprando em sales e usando os das auto da vida.  E tome grana no bolso dos outros.  Ainda assim, talvez um dia sejamos um povo que vai além do uso de chuteiras e camisas amarelas.

Que o espaço para comentários seja palco de contras, a favor e muito-pelo-contrários…

Fotos: All inclusive (na parede de uma academia na Lagoa) by Cariocadorio, julho de 2011; Sale de Roupas (obtido na internet); Interessante disque-delivery (na parede de uma escola municipal na Lagoa) by Cariocadorio, julho de 2011. Halloween é o cacete (obtido na internet).

APO, CPO, RDC e a gastança olímpica

junho 26, 2011

Quando anunciaram o nome de Henrique Meireles para ser o presidente da Autoridade Pública Olímpica (APO), senti aquela vã esperança de que a gastança olímpica poderia ser controlada.  Esta semana a presidente Dilma indicou o ex-ministro das Cidades para ser o responsável pela APO.  Diferente da austeridade do ex-presidente do Banco Central, Marcio Fortes é apenas um político cuja participação no governo Lula resumiu-se a ocupar um cargo político. 

Márcio Fortes

Suas primeiras declarações dão bem conta do que ele entende da posição que vai exercer.

“Tem um negócio que ninguém fala. As perguntas são sempre sobre obras. Eu quero ganhar as medalhas. O Brasil está se preparando pra isso também. Eu vejo uma oportunidade de a gente se afirmar no esporte. Vamos ganhar o máximo de medalhas. Estamos esquecendo disso. O objetivo da olimpíada qual é? A vitória. Claro que pelo espírito olímpico o importante é participar. Mas é muito melhor participar vencendo.”

Vamos e venhamos, isto nada tem a haver com a sua responsabilidade na APO que é controlar recursos e cronogramas físico e financeiro das obras.  Além disso, Fortes teria dito que “o Rio de Janeiro tem uma experiência muito boa quanto à realização dos eventos esportivos. Os Jogos Pan-Americanos não foram uma prévia das Olimpíadas? E qual foi a avaliação desse evento? O melhor Pan-Americano que já houve.”

Isso demonstra que o ex-Ministro das Cidades não tem a menor idéia do que foram os malditos Pan-Americanos para o Rio de Janeiro.  Não sobrou nada que prestasse para a cidade e a utilização política dos ingressos para os eventos foi uma vergonha digna da administração do Pan e desta cidade, nas mãos de Cesar Maia na época.  Só o Maracanã está sendo totalmente reformado para a Copa de 2014 ao custo de R$1 bilhão após ter sido, por duas vezes, reformado nos governos Garotinho e Garotinha para os tais Pan-Americanos.

É bem verdade que Fortes também declarou que seguirá com cuidado o cronograma das obras e rechaçou as comparações com a organização da Copa do Mundo de 2014, que preocupa pelas reiteradas demoras.

A APO estará subordinada a outro novo órgão público, o Conselho Público Olímpico (CPO). Henrique Meireles foi indicado por Dilma para ser o representante da União neste órgão. Junto com ele o governador do estado e o prefeito do Rio de Janeiro.  Os arranjos políticos mais uma vez venceram a austeridade gerencial da Presidente.  

O CPO é mais um órgão público para gastar dinheiro do nosso bolso com um sem número de empregos para acomodar indicações políticas. Não creio que Meireles tenha a menor chance de exercer sua capacidade técnica e administrativa neste meio.  É provável que saia do circuito muito antes de 2016.

Assim como já está claro que o mau uso do dinheiro público (leia-se “roubalheira”) será a tônica da organização da Copa do Mundo de 2014, são poucas as esperanças de uma Olimpíada no Rio de Janeiro que não nos leve à falência.  

Como se isso fosse pouco, o governo põe em campo suas novas damas (Ideli Salvatti e Gleise Hoffmann) para manter o Regime Diferenciado de Contratações (RDC), aprovado na Câmara, que determina o sigilo de orçamentos para obras da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.  Se com o sistema de licitações transparentes acontecem as maiores falcatruas imagina a farra que será este sigiloso RDC.   

Pelo Brasil afora vamos continuar vendo bilhões gastos com estádios super faturados que servirão para manter os mesmos que há tanto tempo controlam o mercado do futebol no Brasil.

Posso debulhar lágrimas de tristeza ou de raiva sobre o teclado mas isto não fará a menor diferença .  Colocar este texto na rede tampouco ajudará a resolver o problema.  Talvez algumas gerações adiante se a propaganda da coca-cola estiver certa…

Fontes: reportagem de Claudia Andrade no Terra.com e do Globo.com de 21 de junho de 2011.  Fotos obtidas na internet.

Um rapaz de Bebedouro no Rio de Janeiro (II)

abril 23, 2011
Talvez os seus tumultuados primeiros meses no Rio de Janeiro (veja aqui) tenham incentivado Edgar Baroni a buscar o oposto. O certo é que, em 1939, ele transferiu-se das noitadas na Capital para a Escola da Polícia Militar do Distrito Federal. 
Baroni na Escola de Polícia Militar do Distrito Federal

Logo suas habilidades com armas e cavalos fizeram com que se destacasse. Formado com alta recomendação, Baroni ganhou o respeito e a admiração dos colegas e superiores. Não foi difícil que fosse aceita sua escolha pelo 5º Regimento de Polícia Montada do Distrito Federal. Não demorou muito foi promovido a Cabo.

Cabo Baroni e o cavalo Biguá

O simpático Cabo Edgar Baroni tinha tudo para fazer uma ótima carreira na polícia. Mas nem tudo eram flores. Suas convicções a respeito de como tratar cavalos começaram a azedar a relação com seus superiores.  Certa vez o Cabo Baroni se recusou a colocar o Biguá, sua montaria favorita, na operação de contenção de uma manifestação popular.  Aquilo maltratava muito o animal. Desceu do bicho, partiu pra cima dos manifestantes e fez o serviço na mão. 

5o Regimento de Cavalaria da PM do DF

LeCoq e o "Fluminense"

O ato teve seu lado de heroismo reconhecido.  Apesar da bem sucedida “estratégia”, o Tenente LeCoq, seu amigo e comandante daquela operação, não teve alternativa senão relatar o ocorrido aos superiores.

E lá se foi o nosso querido Cabo Baroni ver o sol nascer quadrado no xadrez do regimento.  

Aquela não foi a primeira nem a última vez. Era sempre o mesmo motivo: insubordinação quando se tratava de botar o cavalo pra trabalhar mais duro.

Aquele início de vida na Capital Federal rendeu-lhe um monte de pequenas confusões mas também a namorada que depois se tornaria sua esposa de toda a vida. O lado profissional se encontrou na área do comércio e assim, sob a rédea curta imposta pela patroa, Baroni progrediu e sustentou muito bem sua família.

Edgar Baroni viveu por muito tempo uma vida simples e feliz, fazendo as coisas sempre, ou quase sempre, do jeito que queria. Até a hora de ir embora parece que ele escolheu para que fosse do seu jeito.

(a semelhança da saga de Edgar Baroni no Rio de Janeiro com a vida real de pessoas conhecidas não é mera coincidência)

Fotos: Baroni na Escola de Polícia Militar do Distrito Federal (outubro de 1939);  Cabo Baroni e o cavalo Biguá (setembro de 1940); Pátio interno do 5o Regimento de Cavalaria da Polícia Militar do Distrito Federal (setembro de 1940);  Tenente LeCoq e cavalo “Fluminense” (setembro de 1940).  

Um rapaz de Bebedouro no Rio de Janeiro (I)

abril 22, 2011

Uma turma de Primeira

A formatura dos bacharelandos de 1937 foi muito festejada em Bebedouro.  Logo alguns daqueles rapazes oriundos da elite da região viriam para o Rio de Janeiro a fim de continuar seus estudos. Os que eram apenas um rosto no quadro do Ginásio Municipal de Bebebedouro  se formariam médicos, advogados ou seguiriam bem sucedidas carreiras militares. 

Não foi o caso do Edgar Baroni. Ele estava no grupo que se aventurou ao Rio embora estudar não fosse o que pretendia.  Na verdade ele não sabia bem o que queria. Criado na fazenda dos pais, Baroni era exímio cavaleiro e atirador.  Com o cavalo Prata e sua fiel carabina, presente do seu avô quando fez 13 anos, era imbatível nas competições de tiro:
“Onde ponho o olho ponho a bala”, gabava-se ele com justa imodéstia.

Sujeito simpático, suas outras paixões eram o futebol e a sinuca. As pernas fortalecidas pelos exercícios físicos e as intermináveis cavalgadas no campo compensavam a pequena estatura e eram muito úteis para o centro-avante Baroni. Por outro lado a mira de atirador e o espírito boêmio ajudavam no salão de sinuca.

Foi este espírito boêmio que o desviou das salas de aula e o levou para as atrações das noites cariocas.  A habilidade com o taco ajudou-o muito em seus primeiros tempos na Capital Federal.  Foi em um salão da Lapa que Baroni aprendeu uma  lição fundamental para a sua vida.  Sim, porque ele não gostava de estudar mas aprendia muito rápido as lições da vida.

Edgar Baroni percebeu que a turma apostava muito mas jogava menos do que acreditava.  Percebeu que ali estava sua chance de ter um pouco mais de dinheiro do que os minguados caraminguás que lhe mandava o pai desde Bebedouro.
Não por coincidência, subtrair algum do novato com cara de interior seria uma tarefa simples para o malandro local, pensava o “parceiro” que Baroni conhecera naquela noite. 

Feitas as apostas, Baroni controlou o jogo sobre o adversário para que este não percebesse a disparidade de habilidade.  A noite foi seguindo neste ritmo até que o prejuízo do jogador local chegou a muitos dinheiros.

Na forma simples que sempre pontuou a sua vida, Baroni contava que foi nesta hora que o parceiro disse que ia “pedir uns pastéis” e escafedeu-se dali.  Além de não levar a grana da aposta, Baroni ainda teve que pagar as horas da mesa de sinuca.

A vida não foi fácil naquele Rio de Janeiro de 1938. O tal episódio demorou a ser digerido mas ele aprendeu a lição e nunca mais pensou em ganhar dinheiro jogando sinuca.  Por toda sua vida Edgar Baroni foi agradecido ao “parceiro”. Não sem deixar de referir-se a ele com os piores adjetivos que conhecia.

Polícia Montada do DF, 1940

Polícia Montada do DF, 1940

No próximo capítulo (veja aqui) eu conto como foi a vida do Cabo Edgar Baroni na Polícia Montada da Capital Federal.   

Foto: Bacharelandos de 1937, Ginásio Municipal de Bebedouro; Polícia Montada do Distrito Federal (setembro de 1940)
(Acervo pessoal Cariocadorio.  Não pode ser reproduzida sem autorização prévia)

As 7 vidas do Gato Angorá

março 6, 2011

O Rio de Janeiro nunca foi afeito a bons governantes. Além disso, desde os tempos da Guanabara, mantinha uma tradição de ter governadores eleitos contrários ao governo federal.  Fazia parte do espírito pseudo-contestador do carioca. Com a fusão veio Faria Lima nomeado por Brasília e depois, eleitos, Chagas Freitas e Brizola. 

Em 1982 eu achava que era hora de o Rio de Janeiro se alinhar com o governo federal para ver se sobrava alguma verba porque a coisa aqui estava muito ruim. O candidato era casado com a filha do Amaral Peixoto, velho cacique que há anos dominava o combalido estado do Rio. Apesar de sua ligação com o eterno poder estabelecido, votei no tal de Moreira Franco. 

Após aquela lambança que foram as eleições (caso Proconsult, roubo de votos etc) o cara foi eleito.  Prometeu acabar com a criminalidade, fez desfile de patrulhinhas e parou por aí. Conseguiu até brigar com Brasília e se isolar politicamente.  O Rio de Janeiro nunca sofreu tanto no maior desgoverno até então.   O Brizola teve uma volta triunfal na eleição seguinte.

Anos depois Moreira Franco se candidatou a prefeito de Niterói e foi para o segundo turno (como se vota mal neste país).  Em total falta de respeito com o eleitorado, Moreira Franco desistiu do segundo turno.  Nada é mais vergonhoso do que abandonar a eleição e os eleitores no meio do caminho por saber que perderia o segundo turno.

E ainda assim este senhor ocupou cargos nos governos FHC e Lula.  Finalmente, agora no governo Dilma ele é guindado ao cargo de ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), seja lá o que se faça por lá.  É amigo pessoal do vice Michel Temer que fez questão de nomeá-lo.  Terá sido pela sua capacidade administrativa?

Que tipo de força se deposita em certas pessoas para que se mantenham por tanto tempo no poder mesmo que nada do que tenham feito seja proveitoso para a sociedade?  O jogo do poder político que mantém os Moreiras e Sarneys da vida no controle há tanto tempo não é mesmo para o cidadão entender.

Quanto mais se sabe menos se entende.

Fotos obtidas na internet:  animais.blogmaneiro.com ; caixa.gov.br


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.