Arquivo da categoria ‘Fé’

A corredora da Lagoa

abril 1, 2012

Aprecia os cachorros levando seus humanos ao passeio diário, a corrida saudável do pessoal, as conversas inacabadas que por ele passam, o vermelho no bico dos patinhos negros, o vôo elegante das graças brancas e tudo mais.  Caminhar na Lagoa é o seu maior prazer.

Há, porém, alguém especial nas suas caminhadas. 
Onde vai ela sempre assim com tanta pressa? Pouco lhe importa. 
O que vale é senti-la chegando e concentrar-se no deleite que se segue.  A pisada firme no cintilante tênis, a meia mal surgindo antes de descortinar as pernas que sobem graciosamente até se esconderem sob o shortinho de tecido leve.  Ah, o shortinho! Ao sabor do vento e das passadas largas, o generoso corte lateral desvenda a dobrinha do bumbum.   

Com os cabelos graciosamente soltos sobre a blusinha colorida ela se afasta rapidamente em seu vertiginoso correr. Não há sexismo em sua visão da moça. Bem… Um pouco talvez.  Sergio ama cada garça, cada improvável capivara, cada pedra no entorno da Lagoa.  A corredora é o licor cassis no seu creme de papaia. 

Mas neste dia nem mesmo a musa aliviava sua angústia.  
Sérgio subiu as escadarias e entrou na igreja de Santa Margarida Maria. Custava-lhe muito concentrar-se em rezar, o pensamento em todos os lugares entre o “que estás no céu” e o “pão nosso de cada dia”.  Sozinho na igreja soluçou um choro infinito. Saiu com os olhos vermelhos e uma certeza no peito.    

Horas mais trade ele se despedia do Dr. Ubiratan Latorre.  Pela janelinha da porta do elevador viu seu pai agradecer a visita. Mãos justapostas no gestual de sempre, a sinceridade de sempre.   Sérgio sabia que era ele quem mais tinha o que agradecer.  Estar com o pai o confortava apesar do medo que sentia da barafunda mental do velho médico. 

Cantando os parabéns com o netinho mais novo no colo, Sergio finalmente podia curtir os cabelos da corredora da Lagoa esvoaçando docemente à sua frente.   Sentia-se plenamente feliz.

Fotos by Cariodorio: Igreja de Santa Margarida Maria (Lagoa, Rio de janeiro, janeiro de 2012);  O Curumim da Lagoa Rodrigo de Freitas (Rio de Janeiro, janeiro de 2012)
O Dr. Ubiratan Latorre aparece em:  “A porta do elevador”  e “A quarta idade”.

Feliz Natal e próspero 2012

dezembro 17, 2011
Para todas as espécies do planeta

Foto by Cariocadorio: Papagaios de Natal (julho, dezembro/2011)

A graça da garça e o Judas

abril 23, 2011

Aquela era apenas mais uma caminhada em torno do agradável laguinho de Nogueira. Local dos mais aprazíveis descontando-se a convivência com o odor dos cavalinhos.  Mas há que ser tolerante, os cavalinhos estão ali fazendo a alegria da criançada há décadas.

Nos primeiros passos a branquíssima garça chamou atenção.  Saquei o celular e me dispus a fotografá-la. Só que a paciente ave não permite a aproximação humana, um bípede em que ela mui sabiamente não confia nem um pouco.  Antes que eu pudesse chegar suficientemente perto já estava ela em seu gracioso vôo na direção oposta.

Ficamos, eu e a garça, naquele jogo de aproxima e se manda durante algum tempo.  O zoom do celular também não ajudava.  Até que o bicho cansou-se da brincadeira e foi aninhar-se no alto da árvore onde sabia estar a salvo daquele humano chatinho.  

No outro lado do lago encontramos um elemento tradicional dos sábados de aleluia que vem perdendo espaço no Rio de Janeiro:  um Judas.
Sempre achei uma tradição um tanto agressiva esse negócio de pegar um boneco e sair malhando e tacando fogo. Alguma coisa que deve ter sua origem nos tempos da “santa” inquisição, um dos períodos mais nefastos da história das religiões. Mas tradição é tradição e aqui vai o registro em prol da curiosidade.  Que Judas você malharia este ano?

O laguinho de Nogueira e sua “pista para caminhada” andam carecendo de uma boa repaginada.  Jardins abandonados, pessoas fazendo churrasco em local impróprio e barracas instaladas na calçada impedindo a caminhada são apenas algumas das mazelas locais.

Fotos by Cariocadorio (abril de 2011)

O Padre que sabia de tudo

dezembro 28, 2010

Naquela pequena aldeia vivia um padre que a todos ajudava.  Era o representante de Deus, conselheiro, médico e tudo mais que o povo daquele lugar esquecido precisava.  No dia do seu aniversário, os aldeões agradecidos o presentearam com uma placa que dizia: 
“Padre que sabe tudo”

A vida transcorria tranqüila até o dia em que o rei, que jamais havia sido visto por aquelas paragens, adentrou na única rua da pequena aldeia.  Ao ver a placa em frente á igreja ficou indignado com a ousadia do padre.  Como poderia alguém em suas terras dizer-se sabedor de tudo?

Mandou que chamassem o padre ao seu castelo.  Se não respondesse corretamente a três perguntas que lhe faria o rei, seria condenado à morte na forca.

O anúncio dos arautos assombrou a aldeia.  O sacristão pensou um plano.   Como o rei jamais vira o padre, ele, o sacristão, o substituiria. Todos concordaram menos o padre, que não poderia deixar o sacristão sacrificar-se por ele.  Mas o plano do sacristão incluía embriagar o padre na véspera da viagem e seguir em seu lugar mesmo sem seu consentimento.   E assim fizeram.
                                                              
No castelo, os nobres e os sábios do rei se reuniram para uma tarde de diversão às custas do infortúnio do padre.  Sem mais delongas o rei iniciou a série de três perguntas:

“Quantas estrelas há no céu?”
“3.463.789.347.206”, respondeu sem titubear o sacristão.  
“Como saberei se esta é a resposta certa”, reagiu o rei diante de tanta firmeza.
“Os sábios de  Sua Majestade poderão contá-las e confirmar”, sugeriu o sacristão.
Os sábios preferiram concordar a admitir que não poderiam contar todas as estrelas do céu.

“Quantos cestos preciso para colocar toda a terra daquela montanha?”, disparou o rei.
“Apenas um cesto, majestade”, respondeu o sacristão.
“Quer dizer então que um único cesto poderá conter toda a terra daquela enorme montanha?”, insistiu o rei sob os risos zombeteiros da Corte.
Mantendo a calma o sacristão confirmou: “estou seguro de que sua majestade, caso assim o deseje, poderá mandar construir este único cesto do tamanho da mesma montanha e assim confinar toda a terra que nela se encontre.”
Os risos foram diminuindo enquanto o rei planejava uma terceira pergunta que logo proferiu:

“Muito bem, se quiser livrar-se da forca, o senhor deverá me dizer o que eu estou pensando”.
Fez-se o silêncio no castelo, onde a corte já simpatizava com a causa do padre.  Desta vez a resposta demorou um instante a mais em chegar. 
“Sua majestade está pensando que está falando com o padre que sabe tudo mas, na realidade, está falando apenas com o ajudante dele”.

Nos anais do reino não consta registro de qualquer enforcamento naquele ano de xxxx DC.

Feliz Natal e próspero 2011

dezembro 12, 2010

Hoje nada de críticas ou discussões.

Este ano, como cada ano, passou rápido demais.  Já que é assim que tem que ser sempre, que seja.  Mas que 2011 seja muito melhor que 2010 e não tão bom quanto 2012.
Saúde e paz em primeiro lugar. Que todos tenham tempo para cuidar de si mesmos e daqueles que amam.

O Cariocadorio lhes deseja um Feliz Natal e um ótimo 2011.

Foto: Árvore de Natal da Lagoa, 2010 (by Cariocadorio)

janeiro 2, 2010

A escolha de uma casa depende do que precisamos dela mas também de algo inexplicável que nos leva a gostar mais de uma que da outra.  Seria o astral, a energia da casa que faz a gente dizer: é essa… Aquela casa na serra tinha essa energia e esse astral e, mais do que por qualquer outra coisa, foi por isso que a escolhemos. 

Naquela tarde de sábado que recebemos a casa tocou o telefone:  era a proprietária de quem nos despedimos horas antes.  Perguntava se éramos católicos e respondi que sim sem entender bem a pergunta.  Explicou que havia levado a imagem da santa e queria devolvê-la por entender que era mais da casa do que dela mesma.  Agradeci e ofereci buscá-la durante a semana no Rio.  Ela insistiu em devolvê-la no dia seguinte e subiu a serra exclusivamente para isso:  a casa já ficou muito tempo sem a proteção da santa.    Não havia dúvidas no gesto. Fiquei profundamente sensibilizado por essa convicção que não alcanço nesta minha fé pontilhada mais por descrenças do que crenças.  

Frequentemente olho para a imagem da santa com carinho.  Neste início de 2010, olhei-a ainda mais de perto e rezei pelas vítimas da tragédia de Angra dos Reis e Ilha Grande.  Pelos que se foram e pelo sem número de pessoas que sofrerão suas  perdas. 

Que o ano prossiga sem mais desgraças e que todos passam ter paz e felicidade em 2010, dando o devido valor ao que realmente merece.

Foto:  A Santa (by Cariocadorio, 02/01/2010)


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