Posts Tagged ‘Leonel Brizola’

As 7 vidas do Gato Angorá

6 de março de 2011

O Rio de Janeiro nunca foi afeito a bons governantes. Além disso, desde os tempos da Guanabara, mantinha uma tradição de ter governadores eleitos contrários ao governo federal.  Fazia parte do espírito pseudo-contestador do carioca. Com a fusão veio Faria Lima nomeado por Brasília e depois, eleitos, Chagas Freitas e Brizola. 

Em 1982 eu achava que era hora de o Rio de Janeiro se alinhar com o governo federal para ver se sobrava alguma verba porque a coisa aqui estava muito ruim. O candidato era casado com a filha do Amaral Peixoto, velho cacique que há anos dominava o combalido estado do Rio. Apesar de sua ligação com o eterno poder estabelecido, votei no tal de Moreira Franco. 

Após aquela lambança que foram as eleições (caso Proconsult, roubo de votos etc) o cara foi eleito.  Prometeu acabar com a criminalidade, fez desfile de patrulhinhas e parou por aí. Conseguiu até brigar com Brasília e se isolar politicamente.  O Rio de Janeiro nunca sofreu tanto no maior desgoverno até então.   O Brizola teve uma volta triunfal na eleição seguinte.

Anos depois Moreira Franco se candidatou a prefeito de Niterói e foi para o segundo turno (como se vota mal neste país).  Em total falta de respeito com o eleitorado, Moreira Franco desistiu do segundo turno.  Nada é mais vergonhoso do que abandonar a eleição e os eleitores no meio do caminho por saber que perderia o segundo turno.

E ainda assim este senhor ocupou cargos nos governos FHC e Lula.  Finalmente, agora no governo Dilma ele é guindado ao cargo de ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), seja lá o que se faça por lá.  É amigo pessoal do vice Michel Temer que fez questão de nomeá-lo.  Terá sido pela sua capacidade administrativa?

Que tipo de força se deposita em certas pessoas para que se mantenham por tanto tempo no poder mesmo que nada do que tenham feito seja proveitoso para a sociedade?  O jogo do poder político que mantém os Moreiras e Sarneys da vida no controle há tanto tempo não é mesmo para o cidadão entender.

Quanto mais se sabe menos se entende.

Fotos obtidas na internet:  animais.blogmaneiro.com ; caixa.gov.br

Ultra não-tão-leve

2 de abril de 2010

Reconheço a beleza dos seus textos e sua importância como jornalista. Mas confesso não me ter sido simpático o grande Armando Nogueira. O que sinto é fruto de como ficou marcada na minha memória sua participação em dois episódios. 

Voar: a maior ambição do homem

Primeiro o caso Proconsult. Armando comandava o programa da TV Globo que noticiava o andamento das apurações das eleições de 82. Outras emissoras e jornais davam resultados diferentes. No final, aquilo que o jornalista dizia era resultado de uma fraude vergonhosa armada para prejudicar o candidato Leonel Brizola. Estava Armando envolvido? Não sei, mas ele ficou sendo, para mim, a imagem daquela fraude.   
Segundo (ou primeiro) foi sua postura no comando dos programas da TV Globo durante a copa de 82. Sua forma de conduzir debates e entrevistas era controladora e autoritária, o que me parecia incompatível com sua imagem de cronista maior e poeta do esporte.
Jamais consegui dissociá-lo destes eventos.
Qual seria o verdadeiro Armando Nogueira?  Seria o poeta um ditador?  O jornalista chefe um fantoche da ditadura?

Sua morte desencadeou declarações de seus colegas que unanimemente o reconhecem como mestre e dignificador do jornalismo esportivo. Do “Bem Amigos” já se esperava a tradicional fórmula de glorificar pessoas e forjar ídolos.  Mas no “Linha de Passe” da ESPN, bem mais profissional, vimos elogios de jornalistas conceituados como Juca Kfuri, José Trajano, Fernando Calazans, Paulo Vinícius Coelho e Marcio Guedes.  Este último o único a citar, de passagem, o caso Proconsult.

Diante disso tudo, comecei a achar que havia cometido grave injustiça. Somente ontem li a crônica de Eliakim Araújo que me fez lembrar o que mais ajudara a construir a imagem que tenho do jornalista.

Felizmente, não há consequencia alguma do que penso ou deixo de pensar a respeito. Preferiria realmente me convencer de ter cometido um erro de avaliação e, então, poder reler e desfrutar, sem ranços, dos textos de um grande jornalista.

 Crônica de Eliakim Araújo publicado no Direto da Redação (http://www.diretodaredacao.com/)

 ARMANDO NOGUEIRA, UM SEDUTOR IRRESISTÍVEL
por   Eliakim Araújo   –  30/03/09  

Como jornalista, Armando Nogueira foi um excelente poeta e um prosista de texto refinado. Entrou no jornalismo da TV Globo em 1966, quando o golpe militar estava ainda fresquinho, e lá ficou até 1990, quando o novo presidente, Fernando Collor, convenceu Roberto Marinho a promover Alberico Souza Cruz ao posto máximo do jornalismo global, não que tivesse qualquer objeção a Armando, simplesmente porque precisava premiar o amigo Alberico que teve participação decisiva na edição do debate presidencial e ainda palpitou nos programas especiais que transformaram Collor no indômito “caçador de marajás”.

Armando não foi demitido, pior que isso, sofreu uma “capitis diminutio”. Foi “promovido” a assessor especial da presidência, o que a plebe chama carinhosamente de “aspone”. Dedicou-se então ao jornalismo esportivo, onde, aí sim, foi um verdadeiro mestre da palavra escrita e falada. Fui revê-lo anos mais tarde apresentando um programa de esportes num dos inúmeros canais a cabo da Globo.

De Armando, pessoalmente, guardo duas passagens. Eu estava há menos de um ano à frente do Jornal da Globo quando cruzamos no corredor onde ficava a redação do Globo Repórter. Ele me parou e disse: “olha, eu quero te cumprimentar porque desde Heron Domingues não aparecia aqui um apresentador como a mesma naturalidade dele”. Heron era o ícone de toda uma geração de telejornalistas e ser comparado a ele era um elogio e tanto que elevou meu ego às alturas. Hoje, honestamente, não sei se foi sincero ou apenas uma frase de efeito com a qual seduzia todos que estavam entrando no império global.

Doutra feita, estava eu no Eng, a sala da técnica que comanda a transmissão dos telejornais, quando alguém me chamou ao telefone. Era o Armando: “Tenho uma boa notícia para lhe dar, a partir de agora você vai passar a ganhar cinco mil cruzeiros por mês”. Entre surpreso e curioso, rebati de primeira: “e o que é que vocês vão querer em troca?” Armando ficou visivelmente decepcionado com minha reação, esperava talvez um emocionado agradecimento de quem ganhava dois mil reais. Ora, pensei naquele momento, onde já se viu um patrão mais que dobrar o salário do empregado sem um motivo especial? Depois se esclareceu que eu, e todos os demais apresentadores, perdiam ali o status de funcionários da Globo e passavam a Pessoa Jurídica com contrato de firma. Na época uma novidade, hoje uma prática comum no mercado televisivo.

Mas apesar de todas as virtudes de Armando, cantadas em prosa e verso nos depoimentos de personalidades das artes, da política e do jornalismo, não dá pra esquecer que ele esteve à frente do jornalismo mais comprometido do Brasil: o que foi praticado pela Globo durante os anos da ditadura militar. O JN era conhecido como “o porta-voz do regime”. As ordens que emanavam dos governos militares eram obedecidas sem questionamento. Não me lembro, sinceramente, de ter visto por parte dos profissionais da Globo alguma tentativa de desobediência ou de driblar a censura, como fez por exemplo o Jornal do Brasil, que saiu com aquela capa histórica no dia seguinte à decretação do AI-5, 13 de dezembro de 68, iludindo os militares fardados que ocuparam as redações assim que terminou a leitura do ato discricionário.

Eu estava na TV Globo durante o primeiro mandato de Leonel Brizola à frente do governo do Estado do Rio. Entrei em maio de 83, pouco depois da posse do novo governo, e o jornalismo da Globo passava por uma grave crise de credibilidade, com seus repórteres e carros ameaçados nas ruas pela população. Pesava sobre a emissora a acusação de, junto com a Proconsult, empresa contratada pelo TRE para apurar os votos da eleição direta para governador do Estado, em 1982, tentar fraudar o resultado para dar a vitória a Moreira Franco, o candidato do regime militar, apoiado pela família Marinho. Por engano ou má-fé, a emissora divulgava números que não refletiam a verdade da apuração.

Em 1984, no episódio das Diretas Já, onde atuei como narrador em off no comício da Candelária, no Rio, a postura da Globo foi a de ignorar por completo os movimentos populares que cresciam em todo país. Mas não bastava ignorar, era proibido usar a palavra “diretas” em qualquer situação, mesmo como notícia, contra ou a favor. Até que a pressão popular tornou-se irresístivel e a emissora foi obrigada a render-se ao apelo da população brasileira.

Em 1989, no segundo e último debate entre Collor e Lula nos estúdios da TV Bandeirantes, no Morumbi, quando eu tinha acabado de deixar a Globo e estava lá representando a Manchete, observei que Lula estava visivelmente cansado e abatido. Além do esforço da reta final da campanha, ele tinha sido acusado no programa de Collor por uma ex-namorada, Mirian, de tentar convencê-la a abortar uma criança (a filha dele, Lurian). Depois se soube que a estratégia (financeira) de colocar a enfermeira Mirian no foco da mídia a três dias da votação partiu de Leopoldo, o irmão de Collor e muito amigo dos Marinho. A família Collor é dona da emissora que retransmite a programação da Globo em Alagoas. Toda essa lembrança histórica é para dizer que Lula foi mal naquele segundo debate, mesmo assim a Globo, na edição da matéria, destacou os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Os que têm boa memória hão de se lembrar da severa campanha do Jornal Nacional contra o então ministro da Justiça do governo Figueiredo, Ibrahim Abi-Ackel, que ousou impedir a liberação de uma carga de equipamentos supostamente contrabandeados destinados à TV Globo.

Durante várias edições, o JN acusou o ministro de envolvimento no contrabando de pedras preciosas, no qual Abi-Ackel não teve, comprovou-se depois, nenhuma participação. Mas pouca gente lembra disso. É provável até que os jovens executivos da Globo “desconheçam” o fato ou, se souberem, contem uma história diferente. Armando Nogueira estava à frente do jornalismo em todos esses episódios nebulosos que narrei com absoluta fidelidade. De uma maneira ou de outra compactuou com esse tipo de jornalismo corporativo e subserviente.

Talvez tenha faltado em Armando a coragem de assumir sua responsabilidade como diretor de jornalismo da Globo que notoriamente era o braço da ditadura militar na mídia. Sua memória estaria resgatada para sempre se um dia ele tivesse contado toda a verdade, que apenas cumpria ordens que vinham do oitavo andar, mais precisamente da sala do Doutor Roberto. Armando, como eu e todos os que trabalharam na emissora nos anos de chumbo, fomos cúmplices do regime. Uns por total desinteresse político, outros por opção ideológica, outros ainda por necessidade profissional.

Deixo aqui minha homenagem ao Armando Nogueira, poeta, cronista e escritor de texto sensível. E um adjetivo que ainda não ouvi nos inúmeros depoimentos sobre ele: um sedutor irresistível.

Foto: Ultra leve, by Dudz5150, Flickr, Creative Commons. 11/04/2007


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