A porta do elevador

Há mais de quinze anos o Dr. Ubiratan Latorre  repete o mesmo ritual: acompanhar os filhos até a saída e, com um sorriso no rosto, acenar até que desapareçam na janelinha da porta do elevador.

Neste dia ele se levantou cautelosamente da sua poltrona favorita assim que sua filha mais nova despediu-se beijando-lhe a testa. Sob o olhar atento da cuidadora  dirigiu-se lentamente para a saída.
De repente a rotina da sua vida passou-lhe pela mente.

Lembrou-se da sua eterna alegria de viver, do cantarolar matinal antes de ir para o trabalho com a barba bem feita. Do cuidado com os números e com a pessoas, das manhãs de golfe com os amigos de tanto tempo e das tardes de hipódromo em um passado distante. De como cuidou da casa e da esposa até que ela se fosse para sempre. Lembrou-se dos filhos, de todos e cada um de seus netos e do pequeno Daniel que acabara de nascer, seu primeiro bisneto. Do seu fisioterapeuta, da cuidadora, tão paciente e gentil, e do sem número de pílulas e comprimidos diários.

Lembrou-se até da incerteza do seu esquecer. Da leitura diária dos jornais, das notícias lidas e comentadas tantas vezes seguidas apenas para serem novidade no instante seguinte.

Segurou a porta do elevador aberta por mais um momento. Com o mesmo sorriso de sempre mas um brilho nos olhos e uma lucidez incomum nos últimos anos, fitou sua filha calmamente:  

“Por que esse filme não chega logo ao fim?”

 

Foto: A porta do Elevador (by Cariocadorio)

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11 Respostas to “A porta do elevador”

  1. Salete Bernardi Says:

    E não chega ao fim facil não.
    Sempre fico na duvida na escolha entre quantidade ou qualidade.
    Eu particularmente prefiro a qualidade, mas não é dado a nós o direito da escolha nesses casos apesar do tão falado livre arbitreo.
    Mas nem Sartre consegue me convencer que a culpa/responsabilidade é sempre nossa.
    Somos levados por caminhos tortos e prolongados desnecessariamente, mesmo depois de já termos cumprido todos os itens da lista Vida.

  2. Belair Says:

    Hoje soube da morte da mãe de um amigo,que estava com Alzheimer,e de quem meu amigo cuidou muito bem, até o fim.
    Meu pai tambem sofreu a mesma enfermidade,e me orgulho de pertencer a uma família que tambem cuidou dele até o fim.
    Fim que ele também desejou,num instante de lucidez.Um desejo que muito me chocou,vindo de quem veio,eu que conhecia muito bem seu amor à vida.Doeu…
    É uma doença terrível…para todos os envolvidos….

  3. Aventoe Says:

    Mais que o previsível talento do cronista, o texto nos revela um escritor sensível e observador que transfere com habilidade às suas linhas as emoções de vidas verdadeiras. Que venham mais crônicas, para deleite dos seus fiéis leitores e admiradores.

    Abraços,

    Aventoe

  4. Angela Caldeira Says:

    Uma cena tão singela mas tão representativa para quem passa pela dificil tarefa de “ser pai ou mãe dos seus pais”, oferece uma chave interpretativa desses momentos cotidianos que foram a vida dessas pessoas hoje tão dependentes e daqueles que os acompanham e que tambem sofrem ao vê-los assim. Manter o carinho e a atenção, e contornar tantas situações às vezes nos faz esquecer que a falta de paciência pode ser o inicio da falta de respeito pelo outro, e por aqueles que nos deram a vida.

  5. Gilda Says:

    Depois que os médicos conseguiram prolongar a vida, sem resolver alguns problemas básicos, estamos todos fadados a chegar lá. Convivendo diariamente com este problema, posso dizer o quanto é duro, difícil de entender, conviver, aceitar. O pior é não saber o que fazer e ter uma permanente sensação de impotência e incompetência para lidar com a pessoa doente. Em compensação, hoje escutei a estória de uma velhinha de 90 anos que já teve três maridos e atualmente tem um namorado com quem sai toda semana… Espero ficar neste último grupo!

  6. Celso Marino Says:

    Por que não chega logo ao fim ?… logo, logo nao chega… acaba chegando depois de muito sofrimento, depois que todo arsenal de remédios, exames, tratamentos e cuidados que na maioria das vezes invadem a dignidade do indivíduo. Depois que a família sofre, pelo enfermo e pelo esforço possível e impossível dedicado aqueles de quem, no passado, dependemos até nos tornarmos capazes de traçar nosso próprio rumo. Fica a eterna questão: Até que ponto eh piedoso e justo nos agarrarmos a todos os recursos disponíveis no sentido de manter acesa a chama da vida quando o corpo jah nao responde e implora pelo desfecho digno em seguida e uma vida plena de realizações e a certeza do dever cumprido ?
    Sinto essa experiência nesse momento… minha mãe, aos 87 anos, encontra-se hospitalizada faz mais de um ano. Inválida, demente… nas raras vezes em que me reconhece, nao eh capaz de dizer meu nome, porém ainda assim, em fios de lucidez, sente-se cansada, deprimida. Todos desabamos ao fitar esse quadro sem volta… sem esperança que a vivacidade retorne. Essa estrada é só de ida.
    O filme um dia chegará ao fim, nao sabemos quando. Quando vier, será bem recebido como derradeira e libertadora cena de cada uma de nossas vidas. O importante, para cada indivíduo, é te-la feito valer a pena.

  7. Cariocadorio, Ano I « Cariocadorio's Blog Says:

    […] de tantos. A Cigana Rica, muito especial. Copa de 82, Espanha, baseado em um fato quase real. A Porta do Elevador, pra quem sabe o que é isso. Ibicuí, pelo que representa e pela foto. Autódromo do Rio, uma […]

  8. A quarta idade « Cariocadorio's Blog Says:

    […] Foto by Cariocadorio: “alegria na terceira idade” (Fev. de 2007) (Ubiratan Latorre aparece em https://cariocadorio.wordpress.com/2010/04/23/a-porta-do-elevador/)  […]

  9. A corredora da Lagoa « Cariocadorio's Blog Says:

    […] mais trade o Dr. Ubiratan Latorre se despedia dele.  Pela janelinha da porta do elevador viu seu pai mais uma vez agradecer a visita. Mãos justapostas no gestual de sempre, a sinceridade […]

  10. BABY Says:

    Esse seu post com sensibiliza todos que de alguma forma estão ou passarão por uma situação dessas: “quando é que isso termina??”

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