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Houston – Rio, vôo CO-092

30 de outubro de 2010

Graças ao cartão de milhagem de luxe gold platinum, Marcello Senna foi um dos primeiros a ocupar sua poltrona apertada na área destinada à classe plebe rude.   Nada de executiva na sua multinacional brasileira.  Apesar dos preços exorbitantes, o vôo CO-092, Houston – Rio da Continental Airlines estava lotado naquela sexta-feira.  No fundo aquela esperançazinha de que a poltrona ao seu lado ficasse vazia.  Até que a moça com uma camiseta escrita Carioca em forma de Coca-cola sentou-se na janela ao seu lado. 

Cansado da estafante semana de reuniões em Houston, Marcello não estava lá pra muita conversa. Mas não pode evitar. Pouco versada no idioma de Barak Obama a carioca estava feliz por encontrar alguém da terrinha no meio da viagem. Depois dos obas e olás, de onde vem pra onde vai,a conversa chegou rapidamente na família.  Tantos filhos, esposa assim, ex-marido assado, ela trabalhava no INPI e vinha de San Diego onde foi ver o namorado.  Marcello não entendeu direito mas estava mais preocupado com o Sudoku inacabado na mesinha.

O papo continuou durante o jantar.  Agora sobre os pais de ambos e com Marcello mais interessado.  Ela contou que sua mãe, que tanto cuidara da neta mais velha, ainda cedo começou a sofrer com a perda da memória.  Logo começara a ser roubada  no supermercado onde lhe enganavam no troco, se perdia na rua etc. 

Marcello sabia bem o que era isso e retribuiu a conversa. 
Seu pai cuidara de tudo até o Alzheimer tomar conta logo após a perda da esposa.  De homem educado e marido atencioso tornou-se um velho impossível.  Esquecia-se de tudo, até de que um homem não poderia mais fazer certas coisas naquela idade. 
Marcello  já não sabia mais o que fazer e muito menos as cuidadoras que não conseguiam safar-se dos assédios.  Teve que despedir uma delas que gostou da brincadeira e dos pequenos favores financeiros que se auto-outorgava.

O neurologista recomendou terapia musical e atividades em um lar de idosos.  Assim foi feito, mas o incorrigível foi convidado a não voltar lá na semana seguinte.  As velhinhas não podiam com ele. Na sua versão ele “só dizia uns galanteios”.  O que ele não contava, até porque não se lembrava, é que aos galanteios somavam-se bolinações.  

Dois largos bocejos, Marcello virou-se e dormiu suas quatro ou cinco horas de praxe.  Acordou com a moça sentada no seu peito na tentativa de ir ao banheiro.  Tudo bem, já iam mesmo servir o café da manhã.

Desgraças a parte, o fato é que riram bastante das situações tragicômicas dos idosos.  A carioca tinha um ótimo senso de humor e filhos uns dez anos mais novos que os dele, que continuava meio encafifado com a história do namorado em San Diego. 

Quando Marcello acabou de falar da Estela e dos gêmeos, a moça se sentiu a vontade para contar a verdadeira história da sua vida.  O cara em San Diego, brasileiro já perto de voltar pra casa, era sua primeira recaída diante desta raça de crápulas, os homens. 

Conhecia o ex-marido desde pequena, do parquinho do Fluminense, e estudaram no mesmo São Vicente de Paulo onde se viam de vez em quando.  Jovens profissionais, por caminhos diferentes chegaram ao mesmo departamento do Instituto Nacional de Pesquisas Industriais, o INPI na Praça Mauá.   Casaram alguns anos depois. Com muito bom humor seguiu contando sua história para um agora interessadíssimo Marcello Senna. 

Três filhas em idade escolar depois, a carioca começou a desconfiar de alguma coisa. Um pequeno verde foi o suficiente para a colega contar-lhe tudo, ou melhor, muita coisa. O tudo mesmo ela foi sabendo aos poucos.  O sacana do marido não só teve duas namoradas firmes depois de casado como uma filha com uma delas.  Pior, as duas trabalhavam há anos no mesmo departamento de patentes que eles. Com idade parecida com a da sua menorzinha, a filha da outra freqüentava as festinhas de aniversário em sua casa desde sempre.  
Marcello pensava, “meu Deus, esse cara é bom!”.

Certa noite mandou as meninas pra casa da mãe e chamou o marido na chincha. 
Ele negou… era tudo mentira, queriam derrubá-lo do cargo de gerente, que isso e aquilo. Mas tava difícil, ela sabia de tudo, ou quase tudo, com detalhes.    Ele insistiu que a amava, que queira seguir com a família, que isso não se repetiria…
(“Isso o que? …outra namorada?… outra namorada no departamento?…ou seria outra filha?…”, pensava o meu incrédulo amigo). 
No final concordou em sair de casa.  Ela foi generosa e deu-lhe um mês pra arranjar um lugar.  

Passaram-se seis semanas e o cara fingindo que as coisas estavam voltando ao normal. Ela deu-lhe um ultimato.  Ele tinha que sair em dois dias.
O coitado, do fundo do seu sofrimento, ainda tentou argumentar:
“Mas por que você está fazendo isso comigo?”

Photos: Flight CO-092 (Maio 2010, by Cariocadorio); My Mom’s Hands (13/01/08, by Ann Gordon, Flickr Creative Commons);  Quem, eu?  (Maio 2010, EP, by Naj Olari, Flickr Creative Commons)

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Minha Grande Família II

18 de outubro de 2010

Uma certeza nos fins de semana da minha infância era a visita à casa dos meus avós.  Vivia de jogos de cartas, não sei porque eu sempre ganhava no roba-montinho, buscar figuras de bichos nas nuvens, comer biscoitinho de natas… Na televisão cantavam o Francisco José, o Aguinaldo Rayol,  paixão da minha avó,  a Ellen de Lima e outros.  Apresentadores eram o Moacir Franco. o Flávio Cavalcante (um chato) e uma loira chamada Hebe Camargo.  O Chacrinha não era popular naquela casa mas como era engraçado o José Vasconcelos.  Imperdível o Repórter Esso apresentado pelo Gontijo Theodoro. 

Das Laranjeiras pegávamos uns dois ônibus, ou lotações, baldeando na cidade antes de seguir para o Engenho Novo.  Raramente um Chevrolet daqueles pretos que dominavam a praça. Um luxo. Depois as coisas mudaram um pouco e lá chegávamos na Vemaguete azul clara.  

Era tempo de pipas e balões de São João na época certa, com direito a fogueira, melado e canjica.  Por que será que naquela época os balões não causavam tanto dano?  Tempo de procurar presentes de Natal nos sapatos escondidos pela casa.  De futebol e bolas de gude inocentes no meio da rua.  No botequim da esquina encontrava o meu tio e meu pai com ele nas conversas com os velhos amigos.  Orgulhoso do meu guaraná tão parecido com a cerveja dos mais velhos. 

Isso foi lá pelos bons finais de anos 50 e início dos 60.   Do século passado, que fique bem entendido. Por aquelas bandas o cenário não mudou muito mas já não há cadeiras nas calçadas, portões abertos e gente tranquila nas ruas. Estou certo que voltarão, assim que as UPPs cobrirem um Rio de Janeiro inteiro. 

Foto: Minha Grande Família II (1958) –  acervo pessoal Cariocadorio, proibida a reprodução sem autorização prévia. 

Minha Grande Família

9 de outubro de 2010

Minha Grande Família

Há um momento em que o ser humano desperta para a vida além do útero materno.  Não falo do momento em que comhecemos a luz mas de quando passamos a ter a coinciência de que existimos.  A partir daí nos lembraremos de tudo. Neste momento e por muito tempo, pois como demora a passar o tempo então, vivemos o primeiro núcleo social dos muitos de nossa existência: a família.

Sorte daqueles que conheceram desde cedo sua família e mais sorte daqueles que, depois de tanto tempo, sentem que foi bom crescer sendo parte de uma família.  E olha que, por melhor que seja, a família é nossa primeira fonte de problemas.  Problemas estes que se renovam e nos acompanham pelo resto da vida.   

Quando comecei a me reconhecer como gente estas pessoas eram a minha grande família.  Exceção feita aos meus avós e tios do lado paterno, nesta foto não falta ninguém do meu primeiro mundo.  Mais tarde outras pessoas viriam fazer parte da minha grande família.

E assim foi por muito tempo.  Em Ibicuí, como nesta foto, na Ilha do Governador, no Grajaú, em Laranjeiras, São Lourenço, São Paulo e em qualquer outro lugar.  Muitos deles já se foram, embora vivam no carinho da minha memória, enquanto outros vieram para continuar por eles.  

Foto: Minha Grande Família (Fevereiro de 1961) – Acervo Cariocadorio, proibida a reprodução sem autorização prévia.

Cariocadorio, Ano I

3 de outubro de 2010

“Por que você não faz um blog?”,  perguntou-me  Aventoe

Celebremos

Celebremos

Eu tinha todas as razões do mundo para não fazer um blog.  A primeira delas era não saber exatamente o que era um blog e muito menos como começar um.  E tinha ainda aquela má vontade por conta de um tal político que gastava mais tempo factoideando em um blog do que cuidando do Rio de Janeiro. 

Um dia depois eu já tinha um blog com nome e tudo:
Cariocadorio – cheguei ao nome após um toró de palpites pessoal.  Não sei bem como foi.  Gostei e ficou.

O primeiro post foi Olimpíadas 2016, Esperanças e Preocupações . Importante por ser a primeira aventura de escrever alguma coisa que poderia ser lida por qualquer pessoa. O importante  era escrever. A vontade de que alguém lesse veio depois. E, depois ainda, querer saber quantos leram cada artigo, se comentaram etc.

E assim, 86 artigos publicados e mais de 27.000 acessos depois,  passou este primeiro ano de Cariocadorio. Quisera poder me concentrar mais no tema Rio de Janeiro, com mais críticas e análises sobre a cidade.  Mas isso é  difícil, coisa para profissionais.  A política nacional e local  não ajudam. Quem pode manter a esperança com tanta desordem e corrupção? 
Se não quero ficar calado também já estou muito rodado para ficar malhando em ferro frio.

Enseada da Botafogo

Ao mesmo tempo virei freguês dos fotologs do Rio antigo que me incentivaram a buscar inspiração nos baús de fotos da família.  E a família virou tema. O automóvel e o esporte foram inevitáveis na sequencia.   Alguns temas incidentais apareceram mas o acorde principal se manteve.

O mais importante:
As velhas fotos trouxeram o artigo mais importante: Trampolim do Diabo, com uma foto inédita tirada pelo meu avô em 1935.  Mostra o trágico acidente que vitimou Irineu Correa no tradicional circuito da Gávea no Rio de Janeiro.

Meus favoritos:

Vemag em Ibicuí, 1959

Alguns deram muito trabalho, outros mais satisfação e tem aqueles que eu não precisava ter escrito que felizmente são poucos.  Alguns, por algum que outro motivo, são os que eu gosto mais.
O Guarda Livros, sobre uma foto de 1910.
Barra da Tijuca 2017, uma preocupação que começa a ficar menor.
O Homem e sua Próstata, uma preocupação de tantos.
A Cigana Rica, muito especial.
Copa de 82, Espanha, baseado em um fato quase real.
A Porta do Elevador, pra quem sabe o que é isso.
Ibicuí, pelo que representa e pela foto.
Autódromo do Rio, uma paixão de longa data.

Campeões de audiência: 

Veleiros no Píer Mauá

Em fevereiro os veleiros das armadas nacionais atracaram no Pier Mauá.  Com mais de 840 acessos,  este foi o artigo mais acessado.  Grandes Veleiros no Pier Mauá foi ponto fora da curva nos gráficos das estatísticas.

Outras fotos, estas de 1950, mostram o Estádio do Maracanã ainda incompleto.  Representante maior do esporte favorito do Brasil, o Maracanã não poderia deixar de ser dos mais acessados no blog.  Com mais de 830 hits, logo chegará ao topo. 

Uma série de artigos sobre as copas do mundo de 1950 a 1986 (faltou tempo para continuar) aumentaram a audiência. Para minha surpresa a copa de 62 superou as de 58 e 70 nos acessos.  A série acaba com Maradunga, triste conclusão da copa deste ano.

O Estádio do Fluminense, mostra a abertura da Pinheiro Machado para atender ao Túnel Sta. Bárbara.  A procura tem crescido com a ascensão do Fluminense.  

Acidente em Ipanema e Aeroporto do Galeão completam a lista de mais votados com mais de 370 acessos.

Enfim, um balanço positivo que me anima a continuar este passatempo com o qual espero, de carona,  contribuir um pouco com o Rio de Janeiro e manter próximos relacionamentos distantes.

Aos que por aqui apreceram e contribuiram, obrigado pela visita e pelos comentários, mesmo os que discordam do Cariocadorio.  Voltem sempre.  

Parque das Águas de São Lourenço

Fotos by Cariocadorio:  Celebremos (Fev 2010); Enseada de Botafogo (Out 2009); Veleiros no Píer mauá (Fev 2010); Parque das Águas de São Lourenço (Jul 2010); Vemag em Ibicuí, 1959 (Acervo Cariocadorio, proibida a reprodução sem autorização prévia)