Houston – Rio, vôo CO-092

Graças ao cartão de milhagem de luxe gold platinum, Marcello Senna foi um dos primeiros a ocupar sua poltrona apertada na área destinada à classe plebe rude.   Nada de executiva na sua multinacional brasileira.  Apesar dos preços exorbitantes, o vôo CO-092, Houston – Rio da Continental Airlines estava lotado naquela sexta-feira.  No fundo aquela esperançazinha de que a poltrona ao seu lado ficasse vazia.  Até que a moça com uma camiseta escrita Carioca em forma de Coca-cola sentou-se na janela ao seu lado. 

Cansado da estafante semana de reuniões em Houston, Marcello não estava lá pra muita conversa. Mas não pode evitar. Pouco versada no idioma de Barak Obama a carioca estava feliz por encontrar alguém da terrinha no meio da viagem. Depois dos obas e olás, de onde vem pra onde vai,a conversa chegou rapidamente na família.  Tantos filhos, esposa assim, ex-marido assado, ela trabalhava no INPI e vinha de San Diego onde foi ver o namorado.  Marcello não entendeu direito mas estava mais preocupado com o Sudoku inacabado na mesinha.

O papo continuou durante o jantar.  Agora sobre os pais de ambos e com Marcello mais interessado.  Ela contou que sua mãe, que tanto cuidara da neta mais velha, ainda cedo começou a sofrer com a perda da memória.  Logo começara a ser roubada  no supermercado onde lhe enganavam no troco, se perdia na rua etc. 

Marcello sabia bem o que era isso e retribuiu a conversa. 
Seu pai cuidara de tudo até o Alzheimer tomar conta logo após a perda da esposa.  De homem educado e marido atencioso tornou-se um velho impossível.  Esquecia-se de tudo, até de que um homem não poderia mais fazer certas coisas naquela idade. 
Marcello  já não sabia mais o que fazer e muito menos as cuidadoras que não conseguiam safar-se dos assédios.  Teve que despedir uma delas que gostou da brincadeira e dos pequenos favores financeiros que se auto-outorgava.

O neurologista recomendou terapia musical e atividades em um lar de idosos.  Assim foi feito, mas o incorrigível foi convidado a não voltar lá na semana seguinte.  As velhinhas não podiam com ele. Na sua versão ele “só dizia uns galanteios”.  O que ele não contava, até porque não se lembrava, é que aos galanteios somavam-se bolinações.  

Dois largos bocejos, Marcello virou-se e dormiu suas quatro ou cinco horas de praxe.  Acordou com a moça sentada no seu peito na tentativa de ir ao banheiro.  Tudo bem, já iam mesmo servir o café da manhã.

Desgraças a parte, o fato é que riram bastante das situações tragicômicas dos idosos.  A carioca tinha um ótimo senso de humor e filhos uns dez anos mais novos que os dele, que continuava meio encafifado com a história do namorado em San Diego. 

Quando Marcello acabou de falar da Estela e dos gêmeos, a moça se sentiu a vontade para contar a verdadeira história da sua vida.  O cara em San Diego, brasileiro já perto de voltar pra casa, era sua primeira recaída diante desta raça de crápulas, os homens. 

Conhecia o ex-marido desde pequena, do parquinho do Fluminense, e estudaram no mesmo São Vicente de Paulo onde se viam de vez em quando.  Jovens profissionais, por caminhos diferentes chegaram ao mesmo departamento do Instituto Nacional de Pesquisas Industriais, o INPI na Praça Mauá.   Casaram alguns anos depois. Com muito bom humor seguiu contando sua história para um agora interessadíssimo Marcello Senna. 

Três filhas em idade escolar depois, a carioca começou a desconfiar de alguma coisa. Um pequeno verde foi o suficiente para a colega contar-lhe tudo, ou melhor, muita coisa. O tudo mesmo ela foi sabendo aos poucos.  O sacana do marido não só teve duas namoradas firmes depois de casado como uma filha com uma delas.  Pior, as duas trabalhavam há anos no mesmo departamento de patentes que eles. Com idade parecida com a da sua menorzinha, a filha da outra freqüentava as festinhas de aniversário em sua casa desde sempre.  
Marcello pensava, “meu Deus, esse cara é bom!”.

Certa noite mandou as meninas pra casa da mãe e chamou o marido na chincha. 
Ele negou… era tudo mentira, queriam derrubá-lo do cargo de gerente, que isso e aquilo. Mas tava difícil, ela sabia de tudo, ou quase tudo, com detalhes.    Ele insistiu que a amava, que queira seguir com a família, que isso não se repetiria…
(“Isso o que? …outra namorada?… outra namorada no departamento?…ou seria outra filha?…”, pensava o meu incrédulo amigo). 
No final concordou em sair de casa.  Ela foi generosa e deu-lhe um mês pra arranjar um lugar.  

Passaram-se seis semanas e o cara fingindo que as coisas estavam voltando ao normal. Ela deu-lhe um ultimato.  Ele tinha que sair em dois dias.
O coitado, do fundo do seu sofrimento, ainda tentou argumentar:
“Mas por que você está fazendo isso comigo?”

Photos: Flight CO-092 (Maio 2010, by Cariocadorio); My Mom’s Hands (13/01/08, by Ann Gordon, Flickr Creative Commons);  Quem, eu?  (Maio 2010, EP, by Naj Olari, Flickr Creative Commons)

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9 Respostas to “Houston – Rio, vôo CO-092”

  1. Luiz D´ Says:

    A melhor política é abrir um livro e concentrar-se nele. É um perigo abrir a boca ou dar chance de escutar histórias do colega de fila.

  2. Cris "Baby" Says:

    Hi, Carioca!
    o pior é isso não é ficção. Mas também, depois que esssas novelas que õs adolescetnes assistem estimulam bigamia e coisas do gênero… cada vez ficam mais banalizadas
    To com saudades! Enviei uma msg ontem. Recebeu? To querendo marcar alguma coisa aki em casa. Vjs

  3. Salete Says:

    Então meu carioquinha querido, não é que vc também se sai bem como contista(é assim que se fala?).
    Muito bom o seu conto, linguagem agradável, bom encadeamento, prende a atenção.
    Adorei.
    Quem sabe vem por aí uma peça de teatro?
    Quero mais.
    beijuuus e saudades.
    Salete

  4. Jesu Says:

    Depois desenvolve mais aquela parte dela sentada no seu peito. O cara tá poderoso!!!! Brincadeiras a parte está provado que eu li tudo, comentarios na melindrada

  5. Aventoe Says:

    Quando achava que tinha revelado ao mundo um Blogueiro de primeira, vejo despertar um raconteur da melhor qualidade! Depois me convida para o chá da Academia, ok?

    Abraços,

    Aventoe

  6. Renan do Couto Says:

    Carioca, gostaria de convidá-lo a contar histórias sobre Jacarepaguá neste feriado de Finados. http://porforadosboxes.wordpress.com/2010/11/02/dia-de-finados-jacarepagua/ Abraço

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