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Derrubamos a Perimetral?

28 de novembro de 2010

Por que será que é tão importante derrubar a Perimetral?  Será este o maior mal arquitetônico desta cidade?

Perimetral na Praça Mauá

Não creio.  Tampouco posso acreditar que a única motivação em derrubar uma via vital para o deslocamento de milhares de pessoas todos os dias seja a melhoria estética da cidade. Não foi inteligente construí-la mas derrubá-la será uma inaceitável agressão aos cofres públicos.  

No início da semana foi assinado o contrato para a segunda fase do projeto Porto Maravilha que inclui a derrubada do elevado.  Derrubar a Perimetral será, além do desperdício, uma formidável derrota para arquitetos e urbanistas.  Não haveria uma solução que a tornasse menos agressiva ao visual da cidade?  No mínimo há que pensar em alternativas viáveis.  

A matéria de Rogério Daflon na Revista do Globo deste domingo apresenta uma série de arquitetos que defendem a manutenção da Perimetral com idéias criativas.  Seja uma espécie de jardim suspenso como área de lazer, a transformação como linha de trem ou qualquer outra coisa, acho que devemos pensar muito mais antes de derrubá-la.  A proposta de uma concorrência ampla para a escolha da solução é acertada. 

O arquiteto da moda, o valenciano Santiago Calatrava, disse logo que aquilo é horrível e que tem que ser derrubado.  É claro, o cara não mora aqui, não paga impostos aqui e não sabe o que é uma cidade com carência de mais de 200 leitos de UTI, onde as pessoas não conseguem ser atendidas em hospitais ou postos de saúde e onde não tem escola pra todo mundo.  E as escolas que temos são as que colocam o Rio de Janeiro entre os últimos do ranking brasileiro.  

 Na mesma matéria o secretário municipal de urbanismos, o arquiteto Sérgio Dias, diz que a demolição terá custo praticamente zero.  Será que ele realmente acredita nisto?    

O projeto do Porto Maravilha promete fazer jus ao próprio nome.  Mas é preciso cuidado para não ficarmos devendo dinheiro por mais de uma geração.

Este assunto nos preocupa há bastante tempo como pode ser visto clicando aqui.

Foto by Cariocadorio: A Perimetral na Praça Mauá (nov. 2009)

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Mais além da guerra do Rio

27 de novembro de 2010

Viver no Rio de Janeiro é contar com o beneplácito de uma natureza bela e generosa. Não fosse o homem, aqui não haveria tempo ruim nem grandes desastres.

A complacência da natureza transferiu-se, por leitura equivocada, ao próprio carioca, que não soube administrar os limites desta dádiva.  Independente da classe econômica ou social, somos causa e conseqüência da falta de rigor ético que nos tem feito aceitar placidamente tanto desgoverno.  Em todos os níveis cometem-se atos de corrupção, assinam-se gatonetes, traficam-se e consomem-se drogas e constroem-se puxadinhos.  O crime está estabelecido desde as favelas às coberturas da Vieira Souto passando pela classe média carioca.

É histórica a tolerância que o brasileiro e o carioca em especial têm para “pequenos delitos” e “erros menores”.  Esta tradição de esperteza, jeitinho e malandragem está mais para conivência, falta de respeito e falta de ética.  Esta é a origem da tragédia que tem sido o cotidiano da cidade nestas últimas décadas.

De repente a elite carioca já não consegue mais se defender com câmeras, grades e blindados. Os mais humildes não suportam mais viver sob o domínio do poder paralelo. E assim a natureza cobra um alto preço daqueles que, parte inseparável e dependente da mesma, não souberam desfrutar sem abusar de tanta generosidade.  Já passamos da hora de mudar o rumo da história.

Tolice seria acreditar que esta guerra será ganha com armas ou uma possível vitória na “Batalha do Alemão”.  Isto é apenas um inevitável começo.  O combate incansável aos bandidos de hoje que não respeitam os direitos humanos dos cidadãos de bem e as instituições estabelecidas é essencial.  Mas há também que, ao mesmo tempo, cuidar para que não se formem novas gerações de bandidos que diariamente alimentam o exército do crime. 

Esta é uma tarefa de longo prazo que vai exigir perseverança nas ações pela educação, saúde e emprego para cidadãos cariocas. Para que todos tenham direito à verdadeira cidadania, sem privilégios nem paternalismos que só acentuam diferenças históricas. Caberá à população orientar nossos líderes, de forma inequívoca, para que conduzam a sociedade neste sentido.

O Rio de Janeiro tem o direito de voltar a ser a Cidade Maravilhosa.  Isto é um dever de todos e cada um de nós.

Foto by Cariocadorio: Lagoa Rodrigo de Freitas (Out. 2009).

Desordem carioca

21 de novembro de 2010
 

Rua Senador Vergueiro - distribuição de jornais

Não bastassem os tradicionais vendedores de balas, chocolates, biscoito Globo, água mineral e os infames lavadores de pára-brisa, agora temos os vendedores de jornais.  Digo vendedores porque trata-se de um negócio, embora os jornais sejam entregues gratuitamente.  Dois jornais concorrem por este mercado.

A economia por décadas decadente, a falta de empregos e a eterna tolerância das autoridades do estado criaram uma economia de esquina e engarramento difícil de reverter em pouco tempo. É igualmente conhecido o perigo para a segurança que são estes lavadores de pára-brisa cuja atividade não se consegue coibir.

O que se vê agora é uma atividade formal sendo permitida nas ruas do Rio. Os distribuidores de jornais, uniformizados e patrocinados, ocupam as esquinas retardando o tráfego e causando perigo inclusive para eles próprios.  Se a moda pega, em breve teremos todos os tipos de promoções nos sinais trânsito aumentando a insegurança e tornando o ir e vir ainda mais caótico.

Não se pode admitir a institucionalização da desordem. Este mal pode ser cortado pela raiz. É  imperativo acabar com a distribuição se jornais no trânsito carioca.

Barão do Flamengo x Praia do Flamengo

Fotos by Cariocadorio (Nov. 2010)

O valor do dinheiro

15 de novembro de 2010

O estacionamento estava lotado.
Desistiram do costumeiro croquete da Casa do Alemão, símbolo do começo do fim de semana.  Marcha a ré no Peugeot, Marcello sentiu o carro encostar de leve em alguma coisa. Não deu bola. Voltou pra estrada para cem metros depois notar que o pneu traseiro estava vazio.  Parou no posto de gasolina sem viv’alma. Um daqueles de bandeira de um posto só. O frentista, com má vontade, indicou que borracheiro só no outro posto, uns  trezentos metros adiante.    

Marcello sentiu aquele arrepio de insegurança.  No retrovisor percebeu os gêmeos inquietos.  O olhar de Estella mostrava que ela compartia o seu receio.     
Baixada fluminense, aquele carrão com uma família inteira dando mole, crianças… Eram alvo fácil. 
Seguiu arrastando-se pela pista lateral e logo chegou ao posto seguinte.  De fato, no canto do posto caindo aos pedaços, lá estava o velho borracheiro dormindo sossegadamente na porta da borracharia.

Buzinou, mas o que estava dormindo assim continuou.  Vindo não se sabe de onde, surgiu um rapaz forte com jeito de quem vai atender.  E assim foi.  Marcello pegou o manual para entender como trocar o pneu do complicado carro francês. O borracheiro foi fazendo o trabalho.  Marcelo só percebia que estava tudo certo mas quando o cara pediu o adaptador para tirar o último parafuso Marcello gelou.  Nunca tinha visto a tal peça.  Felizmente a encontrou e o rapaz concluiu o trabalho. 

Protegeu o porta-mala com um jornal e posicionou a roda trocada. Aliviado  e pronto pra seguir a viagem, Marcello perguntou quanto era.  

“Quatro reais”, respondeu o borracheiro. 

O rapaz não tinha idéia do valor do serviço que havia prestado. O quanto valia sair dali em segurança e seguir viagem.  O quanto Marcello precisava aliviar a mente da rotina pesada, do rigor do trabalho nestes últimos tempos.  No Rio de Janeiro, a vinte quilômetros dali, cobrariam muito mais só pra não lhe arranhar o carro no estacionamento.  

Na carteira Marcello encontrou três notas de dois reais e as deu ao rapaz.  Se tivesse uma de dez a teria dado. Por pouco não lhe passou a de vinte reais.  O borracheiro agradeceu e indicou onde ele poderia lavar a mão com detergente.  O local estava surpreendentemente limpo, para uma borracharia é claro.  Antes de partir, Marcello chamou de volta o rapaz, que trocava o pneu de velho Corsa, e explicou:

“Quando aparecer um carro desses, pode cobrar uns cinco ou seis que ninguém vai reclamar.”


Marcello manobrou o Peugeot 607 e saiu. 
Estella ainda comentou que o velho borracheiro continuava dormindo do mesmo jeito que estava. 

Fotos tiradas da internet.

2 de novembro de 2010

Vó … vem cá
Vem cá … vó

Corro, abro portas e janelas
Deixo que entre toda a primavera
Num aroma perfumado que se exala
Ei-la que surge, a criaturinha amada
Me desfaço do pranto,
Já não me sinto só
Quão sublime é ouvir
O nome de vó

Vó … vem cá
Vem cá … vó

Num alheio, dentro deste anseio
Afago seus cabelos, revoltos e desfeitos
Suas mãozinhas, as minhas entrelaçam
Vem ao meu encontro, num fervoroso abraço
Me desfaço do pranto,
Já não me sinto só
Quão sublime é ouvir
O nome de vó

Vó … vem cá
Vem cá … vó

Por Jenny,
dedicado aos netos

Jenny sobre a pedra rachada, Ibicuí, 1950

Foto: Jenny em Ibicuí (1950); acervo pessoal Cariocadorio, proibida a reprodução sem autorização prévia.