O valor do dinheiro

O estacionamento estava lotado.
Desistiram do costumeiro croquete da Casa do Alemão, símbolo do começo do fim de semana.  Marcha a ré no Peugeot, Marcello sentiu o carro encostar de leve em alguma coisa. Não deu bola. Voltou pra estrada para cem metros depois notar que o pneu traseiro estava vazio.  Parou no posto de gasolina sem viv’alma. Um daqueles de bandeira de um posto só. O frentista, com má vontade, indicou que borracheiro só no outro posto, uns  trezentos metros adiante.    

Marcello sentiu aquele arrepio de insegurança.  No retrovisor percebeu os gêmeos inquietos.  O olhar de Estella mostrava que ela compartia o seu receio.     
Baixada fluminense, aquele carrão com uma família inteira dando mole, crianças… Eram alvo fácil. 
Seguiu arrastando-se pela pista lateral e logo chegou ao posto seguinte.  De fato, no canto do posto caindo aos pedaços, lá estava o velho borracheiro dormindo sossegadamente na porta da borracharia.

Buzinou, mas o que estava dormindo assim continuou.  Vindo não se sabe de onde, surgiu um rapaz forte com jeito de quem vai atender.  E assim foi.  Marcello pegou o manual para entender como trocar o pneu do complicado carro francês. O borracheiro foi fazendo o trabalho.  Marcelo só percebia que estava tudo certo mas quando o cara pediu o adaptador para tirar o último parafuso Marcello gelou.  Nunca tinha visto a tal peça.  Felizmente a encontrou e o rapaz concluiu o trabalho. 

Protegeu o porta-mala com um jornal e posicionou a roda trocada. Aliviado  e pronto pra seguir a viagem, Marcello perguntou quanto era.  

“Quatro reais”, respondeu o borracheiro. 

O rapaz não tinha idéia do valor do serviço que havia prestado. O quanto valia sair dali em segurança e seguir viagem.  O quanto Marcello precisava aliviar a mente da rotina pesada, do rigor do trabalho nestes últimos tempos.  No Rio de Janeiro, a vinte quilômetros dali, cobrariam muito mais só pra não lhe arranhar o carro no estacionamento.  

Na carteira Marcello encontrou três notas de dois reais e as deu ao rapaz.  Se tivesse uma de dez a teria dado. Por pouco não lhe passou a de vinte reais.  O borracheiro agradeceu e indicou onde ele poderia lavar a mão com detergente.  O local estava surpreendentemente limpo, para uma borracharia é claro.  Antes de partir, Marcello chamou de volta o rapaz, que trocava o pneu de velho Corsa, e explicou:

“Quando aparecer um carro desses, pode cobrar uns cinco ou seis que ninguém vai reclamar.”


Marcello manobrou o Peugeot 607 e saiu. 
Estella ainda comentou que o velho borracheiro continuava dormindo do mesmo jeito que estava. 

Fotos tiradas da internet.

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2 Respostas to “O valor do dinheiro”

  1. Jesuino Ramos Filho Says:

    Dignidade. Não importa quem está pedindo o serviço. O valor não pode mudar pelo poder aquisitivo do usuário, o que não impede que vc remunere melhor porque achou o serviço bem feito. Pena que furar o pneu é uma inconveniência mas descobrir gente digna e divulgar é um bonito trabalho do carioca do Rio.
    Abraços
    J

    • cariocadorio Says:

      J,
      De fato. Mas veja só o preço dos vôos e de hotéis por exemplo. Variam confome a época do ano e a procura.
      Por que o borracheiro não pode cobrar de acordo com o “peso do carro ou do pneu trocado”?
      Seria uma medida justa e não de acordo com o poder aquisitivo do usuário.
      Abraço carioca

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