A perseverança da memória

Encontrei D. Cecília muito agitada naquela tarde.  Insistia em andar pela casa embora nem mesmo forças para se levantar sozinha tivesse. Mal se lhe ouviam as nervosas instruções, a voz prejudicada pelo Parkinson. Apontava a porta da rua, queria sair.

De repente balbuciou palavras em francês. Há muito tempo não a ouvíamos falando francês. O que seria aquilo agora?  A enfermeira procurou acalmá-la. Cecília insistia, repetindo palavras sem sentido.
 

Aproximei-me bastante e finalmente entendi.  
“Suzanne…premier étage…”

Queria apenas visitar sua amiga de tanto tempo, Suzanne Bergé.  Ela morava no mesmo prédio, no primeiro andar.  Expliquei que Mme. Bergé estava em Londres mas que  telefonaria assim que chegasse. Acalmou-se sob o efeito da mentira sincera ou talvez do Rivotril que o Dr. Gilberto receita para estas situações. 

Sentou-se tranquila. Nas mãos os presentes do dia das mães.  Estava mais interessada em fazer e desfazer as embalagens do que nas colônias, sabonetes e lencinhos.  

O pensamento ia longe agora. Certamente nas tardes de cinema, ateliês e museus com as amigas.  Ou nas longas noites regadas a cigarros e vinhos no Le Jardin. Cecília e o marido participavam de intermináveis discussões sobre o ser ou não ser, sobre artes e política, seu assunto predileto. 

“Le communisme est le future de l’humanité, donc il vaut mieux que vous vous habituez”, provocava Cecília. Décadas depois ela não se absteve de admitir sua decepção quando aquela experiência que tanto admirava começou a fracassar.

A vida meio boêmia, meio deslumbrada do casal acabou quando Cecília passou a ter direito a ganhar presentes no segundo domingo de maio. 

Agora ela já não brincava com os presentes.  Dormia, cabeça de lado no espaldar da poltrona, um quase imperceptível sorriso nos lábios.  Poderia apostar que em sonhos ainda estava na sua Paris do início dos anos 60, a época mais divertida da sua vida.

Nem mesmo as grandes amizades são imunes à distância e ao tempo. Suzanne Bergé foi a amiga inseparável, ainda que achasse uma grande besteira aquele negócio de comunismo.

Quando Suzanne se foi, pouco antes da virada do século, há muito as amigas já não se viam.

Imagens, na ordem:
“The helmetmaker’s once beautiful wife” de Auguste Rodin, foto by cariocadorio em 1985. (Veja mais sobre esta escultura aqui).
“The persistence of memory”, Salvador Dali, foto obtida na internet.
“Jeunes Filles au Piano”, Piere-Auguste Renoir, foto by Cariocadorio em 1985.

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7 Respostas to “A perseverança da memória”

  1. Paulinho Says:

    Parabéns, Carioca!

    Seus escritos estão mexendo com o sentimento e a memória de velhos amigos.

  2. Salete Says:

    Gosto muito dos seus contos, simples e ao mesmo tempo profundos.
    Adorei esse!
    beijuuus
    Salete

  3. Valéria Says:

    Caramba, amigo! Está muito bom. Parabéns
    grande abraço

  4. Rita Says:

    Bom Dia João Carlos,

    Uma das facetas mais importantes da Inteligência Emocional é a espirituosidade e isso você tem de sobra. Adorei seu comentário!

    Este texto que você postou está impregnado de ternura, é maravilhoso e as ilustrações trazem uma das obras mais significativas do Surrealismo e de seu autor e criador: Salvador Dali. Meu maior ídolo na Arte de pintar e criar.

    Obrigada e apareça sempre.

    Rita

  5. Rosana Souto Says:

    Querido Carioca,
    vc é um orgulho para os engenheiros escritores!! Eu diria, nem parece que é engenheiro!!! Aliás, cada dia que passa, mais eu descubro a razão de eu ter feito engenharia tb. Acho que foi para equilibrar o lado sensível que era, e ainda é, prá lá de desenvolvido. Felizmente, não matamos as aulas de Português do saudoso Bahiense!
    Um grande abraço para vc! Parabéns pelo texto!
    By the way – 1 -o original de Jeune-fille au piano, de Renoir, está no Brasil, na mostra do Centro Cultural do BB – filas concorridíssimas.
    2 – eu tb costumo usá-lo para ilustrar alguns temas dos cursos de florais

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