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Roraima; de Acácias, nióbios e Buritis

31 de julho de 2011

Lá onde acaba o Brasil, cortada pela linha do Equador, há uma terra com dimensões parecidas com as da Romênia, da qual pouco se ouve falar.  Boa parte delas são literalmente terras indígenas (TI), como a Raposa Serra do Sol.

Buritis

São interessantes alguns fragmentos de frases escutadas de moradores locais, sejam filhos da terra ou que lá se fixaram ou apenas temporários.  Reproduzo aqui sem me comprometer em ser exato.   

“Aqui falamos Roráima e não Rorãima”

“Onde tem Buriti pode ter certeza que tem água.”

“Aqui não tem selva amazônica, a região é de lavrado, com poucas árvores.”

“Ficaram de financiar plantio nas novas terras mas só plantaram Acácias, que não servem pra nada.”

Plantações de Acácias

  •  “A economia é movida a contra-cheque. Aqui não tem indústria. O dinheiro que gira é de pagamento.  A maioria trabalha para o governo ”    
  • “Antes tinha mais produção de arroz e gado mas depois que deram a terra para os índios a produção foi diminuindo”
  • “O Quartiero foi quem ficou até o fim nas terras indígenas. Foi processado e depois acabou se elegendo deputado. Não precisou nem fazer força.” 
  • “Prometeram reassentar e indenizar o pessoal que perdeu as terras mas até hoje tem gente que não recebeu nada.” 
  • “Nos anos 60 a família tinha terras lá. Os índios tinham suas malocas e moravam nas terras. A convivência era pacífica mas depois começaram a incentivar para que eles tomassem as terras.” 

Terras de Roraima

  • “A região tem muito mineral como nióbio e outros que são importantes para a indústria eletrônica.  Sei lá, pode parecer teoria da conspiração mas aqui tem muito estrangeiro como missionário, pesquisador…esse negócio de demarcação pode ter a haver com interesses estrangeiros.”

Onde tem Buriti...

Em Roraima, como em todo o Brasil, as coisas de governo são mal feitas. Não importa se a terra deve ou não ser dos índios.  Conhecendo, porém, o que move as decisões tomadas em Brasília, é de se esperar que existam interesses além dos que possam ser apenas fazer justiça aos legítimos direitos das nações indígenas de Roraima.   

E de uma coisa podemos ter certeza: onde tem Buriti … tem água.

Fotos by Cariocadorio, julho de 2010.

Teresópolis, 1962

29 de julho de 2011
Nas tardes de sábado ou domingo a família fazia passeios até a longínqua Barra da Tijuca ou pelo Alto da Boa Vista. Às vezes o pessoal arriscava um passeio mais longo. Mais raros, estes eram os meus favoritos.

DKW Vemag na Av. Brasil

Nestas ocasiões marcava-se encontro no início da Av. Brasil.  Era um local adequado para todos os que saíam do Rio de Janeiro vindos da zona norte ou da zona sul.  Naturalmente, uma coisa pouco recomendável para se fazer atualmente.

Vovô, grande incentivador destes passeios, era invariavelmente o primeiro a chegar.  

A Vemaguete 58 do Horácio em frente ao Bife Grande

Desta vez o destino era Teresópolis.  O que nunca saiu da minha memória deste passeio foi o restaurante no centro de Teresópolis: Bife Grande.  Ficava na avenida principal, a Feliciano Sodré, acho eu. Não creio que ainda exista.

Cariocadorio e o relevo típico de Teresópolis ao fundo

 

Dauphine, fuscas, aero e charangas

No início dos anos sessenta, com o progresso dos anos JK, as famílias de classe média podiam ter um carro e uma casa com os eletro-domésticos básicos sem problemas.  A educação não era exemplar mas o acesso à escola pública assegurava uma instrução razoável.  As escolas particulares tampouco eram a preço de universidade americana como são hoje.  Tipicamente, bastava o homem ter um emprego enquanto a mulher cuidava da casa para que a vida fosse razoavelmente tranquila para a família.   Passeios como este eram bem acessíveis para a classe média.

Águas limpas

 O passeio incluiu esta incursão a um rio de Teresópolis que, se estiver como os que conheço atualmente, não seria tão atrativo hoje em dia.   A poluição tomou conta dos rios da serra do estado que passam por dentro das cidades.

Embora precárias, as estradas tinham pouco trânsito o que diminuía os riscos. 
Era fácil o ir e vir sem o perigo de um grande engarrafamento na Av. Brasil, por exemplo, e muito menos um arrastão por aí.

Pelo álbum de fotos, concluo que voltamos por Petrópolis.  A estrada que liga Teresópolis a Petrópolis era famosa então pela beleza do visual e das hortências ao longo da via. Após 50 anos,  a estrada não mudou para melhor. Tradicionalmente mal cuidada, ficou ainda pior com o temporal do início do ano.   

Estrada Petrópolis-Teresópolis

Espero que Teresópolis, Friburgo e partes de Petrópolis afetadas pela calamidade do início do ano se recuperem logo.  Apesar de os nossos “homens públicos” roubarem até merenda de criancinha carente.

Fotos: Viagem a Teresópolis, 1962 (acervo pessoal Cariocadorio; proibida a reprodução sem autrorização)

Halloween é o cacete

20 de julho de 2011

All inclusive?

Há poucos anos a pequena frase que dá título ao artigo tomou conta das ruas.  Chegava a incomodar como colovam os cartazes e sujavam tudo.  Mas fazia sentido.

Sale de roupas

Globalização não é explicação pra tudo.  A falta de orgulho próprio e de auto-estima assola o brasileiro em geral.
“É importado? Então é melhor”, por default (Opa!!!).

Os povos tendem a se achar melhor que os demais. São assim alemães, americanos, japoneses, franceses, argentinos etc.  O brasileiro, ao contrário, se acha definitivamente pior que os demais. Então desprezamos o que é nosso, particularmente a  cultura e o  produto brasileiro. Exemplos deste desdém pelo produzido no Brasil estão em todos os lugares.

No dia a dia, o uso abusivo de palavras estrangeiras nos anúncios e propagandas é apenas um sinal.  Algumas vezes este recurso chega a ser ridículo.

Interessante disque-delivery

As razões para este complexo coletivo de inferioridade certamente tem fortes raízes no comportamento das elites brasileiras. Há séculos nossas elites procuram se distanciar do “resto do povo” e encontrar no “estrangeiro” a sua real imagem e semelhança.  Não que o “resto do povo” seja muito diferente. Só que são exatamente as elites as que têm a obrigação de mudar o rumo das coisas e, obviamente, nunca o fizeram.

Enquanto isso continuamos tendo entregas do tipo delivery, comprando em sales e usando os das auto da vida.  Cheios de creative technologie. E tome grana no bolso dos outros.  Ainda assim, talvez um dia sejamos um povo que vai além do uso de chuteiras e camisas amarelas.

Que o espaço para comentários seja palco de contras, a favor e muito-pelo-contrários…

Fotos: All inclusive (na parede de uma academia na Lagoa) by Cariocadorio, julho de 2011; Sale de Roupas (obtido na internet); Interessante disque-delivery (na parede de uma escola municipal na Lagoa) by Cariocadorio, julho de 2011. Halloween é o cacete (obtido na internet).

Hortomercado

16 de julho de 2011

Minha ojeriza a feiras-livres vinha do tempo de criança quando era obrigado a acompanhar minha mãe nas compras semanais. A feira ficava na rua São Salvador e tudo nela me incomodava. Aquele monte de gente, o vozerio infernal e a volta pra casa carregando algum pacote.   Já lá se vão uns cinqüenta anos.

Há cerca de dois anos, porém, durante uma caminhada, resolvi passar por dentro de uma feira. Pra minha surpresa, em vez daquele mal-estar que esperava me provocasse, senti um pulsar de vida nas barracas coloridas com suas frutas e legumes, na alegria das pessoas que com carinho escolhiam seus alimentos e nos comerciantes que cuidavam de seus negócios.

 

 

 

 

Embora fazer compras nunca tenha feito parte importante do meu departamento não é incomum alguma que outra ida ao supermercado.  Mas não me lembro de ter reparado tanto em uma banca de legumes e verduras por mais bem arrumada que estivesse.

Recentemente, no Hortomercado de Itaipava, me chamou atenção a beleza das cores dos alimentos frescos, da disposição das mercadorias nos boxes e das flores expostas para a venda.

Percebi a beleza simples do valor das nossas fontes básicas de vida.  Ao fazê-lo refleti sobre o quão efêmeros são os valores estéticos e materiais potencializados até a histeria na sociedade… Sei lá, acho que estou ficando velho.

Fotos by Cariocacorio: Hortomercado de Itaipava, Petrópolis, RJ (junho de 2011).

Fonte da Saudade em 2 tempos

5 de julho de 2011
Fonte da Saudade, 1890

Fonte da saudade, 1890

No princípio do século XIX, lavadeiras portuguesas cantavam fados e lavavam roupas junto a uma fonte nas margens da lagoa de Sacopenapã,  relembrando a terra distante . A fonte ficou então conhecida como a “Fonte da Saudade”,.
Desta fonte se bebia uma água mágica. Diziam que aquele que bebesse sua água, nunca mais esqueceria a pureza do lugar.  Já não existe a fonte e muito menos as suas águas puras e mágicas.

Lagoa Rodrigo de Freitas, 2011

A região continua até hoje conhecida como Fonte da Saudade.  A lagoa tomou o nome do último proprietário do engenho de cana-de açúcar que ali ficava. 

Onde efetivamente ficava a “Fonte da Saudade” retratada na fotografia de fins do século XIX ? 

Desde então muito já se roubou do espelho d’água da atual lagoa Rodrigo de Freitas, dificultando precisar o local. Observando a posição das montanhas ao fundo,  concluí que a fonte ficava, aproximadamente, onde hoje temos a igreja de Santa Margarida Maria. A foto atual procura retratar a mesma posição relativa da Pedra da Gávea e do morro à sua direita.

Fica aqui a proposta para que alguem indique a localização exata da “Fonte da Saudade”.

Lagoa Rodrigo de Freitas


Fotos:
Fonte da Saudade, 1890 (postal da editora Melhoramentos); Lagoa Rodrigo de Freitas e panorâmica da Lagoa, 2011, by Cariocadorio
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Informações p/ texto: PUC-Rio / Departamento de Artes & Design, Análise Gráfica / 2005.1 Prof. Edna Lúcia Cunha Lima e Aluna Mary Court