A tragédia nossa de cada dia

Parte I:
Não é necessário pesquisar muito para lembrar de vários desastres recentes na cidade.  Para citar alguns, não faz muito tempo caiu um pequeno prédio no Catumbi;  uma explosão destruiu um restaurante no Centro;  o prédio semi abandonado do hospital do Fundão teve que ser implodido antes que caísse também.  No dia 30/01 um operário morreu e outros ficaram feridos em uma explosão no porto porque as redes fluviais estavam contaminadas com óleo. Por toda a cidade explodem bueiros por haver gás nas galerias do sub-solo. E não estamos nem falando de desgraças causadas por enchentes.

Assim, o desabamento do edifício Liberdade e de dois prédios vizinhos não chega a ser uma surpresa.  O Rio de Janeiro está sempre prestes a ser abalado por desastres de todos os tipos.  Como chegamos a este ponto? 

Falta seriedade antes, durante e depois destas catástrofes.  Logo após o recente desastre, alguém do governo saiu com a idéia de que precisamos de um “laudo” para todos os edifícios. Ele não lembra que o parque de diversões onde morreu uma jovem quando o brinquedo voou pelos ares também tinha um “laudo”. Segundo o site  ig, o CREA antecipou que a culpa deve ser das obras atuais no prédio.  Jornalistas, cidadãos e blogueiros podem “achar” a vontade mas o Conselho Regional de Engenharia deveria investigar seriamente primeiro e achar depois.

Metro na Av. Treze de Maio, 1975

Grandes acidentes geralmente acontecem em função de uma sequência de eventos, não por uma única causa. Portanto, se perguntarmos se a causa foi o abalo causado pelo buraco do metrô nos anos 70, a reforma do terceiro andar, a abertura de janelas na empena do prédio, o acréscimo de andares após a construção original ou o excesso de entulho no nono andar, a resposta provavelmente será que tudo isso contribuiu para a tragédia.
E em cada uma dessas fases haverá pitadas de irresponsabilidade, negligência e incompetência de proprietários, administradores, profissionais e autoridades. 

Alterações e obras (site ig)

Mas em última análise a culpa é da forma como nós, brasileiros, lidamos com assuntos sérios. De como escrevemos leis e as aplicamos.  De como fiscalizamos o cumprimento destas leis. De como apuramos responsabilidades e punimos culpados.  De como nosso legislativo é inoperante para o que realmente importa, de como nosso executivo não impõe a ordem e de como nosso judiciário faz de tudo para não concluir coisa alguma.

Parte II:
Caminhando pelo Centro quarta-feira passada, passei pela rua Treze de Maio e vi a operação final da remoção dos escombros dos edifícios no enorme vazio deixado no local. 

Vazio dos edifícios na 13 de maio

Teatro Municipal

Logo a seguir, observei o contraste da desolação com o Teatro Municipal, belíssimo, ainda com o frescor da recente reforma. Se este prédio centenário tivesse sido afetado, o prejuizo seria incalculável para o patrimônio cultural da cidade.

O pior é concluir que tivemos sorte nestas catástrofes.  Porque se ocorressem um pouco mais tarde, no caso da explosão no restaurante, ou um pouco mais cedo, no caso do Edifício Liberdade, estaríamos contando às centenas o número de perdas de vidas  humanas e de famílias atingidas. 

Mais adiante me deparei com a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Não dá pra ver o Palácio Pedro Ernesto sem relacionar os que o freqüentam com a nossa rotina de desgraças.

Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro

Mas há coisas mais importantes para nos preocuparmos porque o verão continua, o Porto ficará Maravilha, a Copa e as Olimpíadas vem aí e, afinal, logo teremos eleições… 

Fotos: Tragédia, Vazio dos edifícios da Treze de maio, Teatro Municipal e Câmara dos Vereadores ( Fevereiro de 2012), by Cariocaodorio. Metro, av. Treze de maio, by Paulo Moreira (fevereiro de 1975) – obtida no site Rio de Histórias, de Rômulo Lima – e  Desabamento no Rio de Janerio arte by site ig (Fevereiro de 2012).

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6 Respostas to “A tragédia nossa de cada dia”

  1. Gabriel Catarino Says:

    GOSTARIA DE TER…
    Um Codigo Municipal de Construcao Civil de Obras e Reformas.

    Um Conselho Federal de Conduta e Julgameto dos Politicos.

    Um Conselho Estadual dos Direitos e Deveres da Sociedade Civil.

    Um Portal Federal Nacional dos Gastos Publicos.

    Um DISQUE DENUNCIA NACIONAL DE CRIMES AMBIENTAIS.

    Um Portal Nacional de Cargos e Salarios dos Funcionarios Publicos

    SRRA QUE UM DIA OS LEGISLADORES HAVERAO DE FAZER ESTA JUSTICA SOCIAL, DESCREVENDO A VERDADE A TODOS ?

  2. maniacosporfilme Says:

    Ótimo post.

    Realmente a sua colocação sobre a postura do CREA, “achando” antes de fazer qualquer análise técnica (se é que é possível, após a rápida remoção dos entulhos), foi excelente..

    A Prefeitura também é engraçada, e pensa logo em uma nova fonte de corrupção através dos citados “laudos”.

    E a omissão do nosso Governador, que não se sabe se estava passeando ou simplesmente se omitiu, é algo também muito triste.

  3. Salete Bernardi Says:

    E você esqueceu do mais importante, está chegando o Carnaval! esqueçam as dores, os acidentes, as mortes e o que quer que seja e vamos sair num dos milhares de blocos que enchem nossa cidade de barulho ,urina, sujeira, bebados, pessoas transando no meio da rua, engarrafamentos, turismo sexual e muita falsa alegria pois temos que ser felizes no carnaval.
    O resto que se dane , pois também temos o futebol!!!!

  4. Cris Says:

    É Carioca, é muito triste mesmo.
    Aqui, as tragédias acontecem…
    vira o assunto do dia, ou no máximo da semana e …. vamos à praia…, correr na lagoa, tomar o chopinho vendo o lindo por do sol ou pular carnaval.. que nossa a vida continua…..
    Enquanto isso
    Para quem a tragédia ainda não chegou mais perto.
    Até quando?

  5. Luiz D´ Says:

    Será que alguém poderia me explicar a razão da pressa em remover os entulhos com máquinas super-pesadas?
    Como explicar os corpos mutilados jogados no lixão?

  6. Aventoe Says:

    Muito bem colocado. A inútil burocracia corporativista e arrecadadora de taxas em que se transformou o conselho regulador da atividade profissional dos engenheiros (será que o novo CAU fará melhor pelos arquitetos?) e o total descaso da fiscalização do Poder Público, que só entra em cena após consumada a tragédia, nos relegam à própria sorte.

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