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Geraldo Gargalhada

26 de agosto de 2012

Geraldo Gargalhada, Geraldo Colombo… Meu grande amigo Geraldo.

Naquele dia em que nos encontramos em uma exposição de carros de corrida no Estádio de Remo e depois caminhamos até o pequeno parquinho em frente à hípica na Lagoa, a minha vida começou a mudar. O mundo começava a tornar-se maior que a família, a escola, o edifício e o clube.  Havia uma intensa alegria nos seus olhos quando brincávamos inocentemente no auto-pista, o carrinho de bater.  Não sei como se estabelece a passagem da infância para a adolescência nem mesmo se é desta passagem que eu estou falando.  Mas foi definitivamente, uma passagem.

A paixão pelo automobilismo era coisa rara naqueles tempos em que o Chico Landi já não fazia sucesso e um desconhecido Emerson Fittipaldi ainda dava suas primeiras entortadas nas precaríssimas pistas brasileiras.  Essa paixão catalisou nossa amizade por anos a fio. Juntos freqüentamos o clube, a praia, as festas, passamos tantos carnavais em Cabo Frio, fizemos vestibular e jogamos fora incontáveis longas conversas pelas esquinas de Laranjeiras.  Mas mais do que tudo respirávamos automobilismo. 

Na minha casa, Natal de 1974

Geraldo virou família.  Assistíamos aos GPs lá em casa, o meu pai junto. Papai abria uma cerveja que bebíamos acompanhada de sardinha na rodela de pão francês.  O Geraldo passou a chamar o Velho de pick-up quando soube que um dia seu apelido fora João Vitrola.  De vitrola para pick-up foi um passo.  O apelido que só ele usava era sua forma de mostrar que a pessoa era especial para ele. Em algum momento eu mesmo virei Jotacê.  Geraldo tinha também um caminho diferente de todo mundo para cada destino. Literal e literariamente falando.

Viramos ratos de autódromo no Rio e em Interlagos. Fomos ajudantes de mecânico, torcedores de arquibancada, comissários de box na Fórmula 1, bandeirinha de pista  tudo mais.  Graças ao Geraldo conheci de perto os ídolos nacionais da época.  Sentávamos para almoçar com eles após as corridas na Barra, ouvíamos histórias de automobilismo e até contávamos as nossas.  Seu carisma e sua inconfundível gargalhada abriam todas as portas.  E eu ia junto.  Éramos felizes e sabíamos muito bem disso.

 A vida de engenheiro não foi fácil a partir da década perdida de 80.  Geraldo buscou a sorte em São Paulo e por lá ficou. Era janeiro de 1990 quando tocou muito cedo o telefone lá em casa.  Acordamos meio assustados naquele frio danado que fazia em Madrid.  Era o Geraldo, para que eu não me esquecesse do meu aniversário de casamento, como fazia ano após ano.   

A distância e o tempo têm o implacável efeito que os mais rodados já aprenderam.  As notícias ficaram escassas até sumirem de vez.  Mas há uns cinco anos decidi procurá-lo.  Quando nos falamos parecia que tudo havia sido ontem.  Seguimos trocando emails, fotos e finalmente nos encontramos e jantamos com as respectivas em uma noite memorável.  Resumimos os últimos quinze anos naquelas poucas horas. Este blog, com as coisas do automobilismo, ajudou a manter o contato à distância. 

 Não me dei muita conta quando ele deixou de responder a um email. Este mês no dia do meu aniversário, vim a saber por caminhos que só o Geraldo poderia traçar, por que ele não havia respondido. Há pouco mais de um ano e meio, em algum ponto da estrada entre o Rio e São Paulo, os improváveis caminhos do meu amigo o levaram inexoravelmente para longe nosso convívio.    

Como disse, não sei muito bem como se estabelecem as passagens de uma fase a outra da vida. Sinto apenas que eu estou vivendo mais uma e, mais uma vez, o meu querido Geraldo está novamente presente.

A mulher e suas razões irracionais

20 de agosto de 2012

“Você vai pensar em mim todos os dias?”, perguntou Marilda Helena, languidamente, com a boca molhada pelos beijos do amado.

“Não sei”, respondeu Gabriel, de pronto.

“Como assim, não sabe?”

“Não sei, eu nunca pensei no assunto… Não posso afirmar uma coisa que não tenho certeza.”

Atordoada, Marilda Helena não disse mais nada. Mesmo à distância pensava nele todos os dias, várias vezes por dia. Como ele pode ser tão insensível? 

Partiu naquela noite com a incerteza a martirizá-la. Ficaria longe do amor de sua vida por quinze dias e ele nem pensaria nela.  Ela era mesmo uma idiota.  Além de pensar nele todos os dias fizera a besteira de confessar.  Pior ainda foi perguntar se ele sentia o mesmo.  Apenas para ele, triunfante, responder “não sei”.  Aquele mesmo “não sei” que torturava sua mente. Se ao menos não tivesse perguntado…

Na escala no Panamá, já concluíra que ele havia perdido o interesse por ela. Talvez nunca tivesse existido amor.  Talvez um interesse passageiro, um desejo que o tempo havia se encarregado de arrefecer. Como pode pensar que este marido seria diferente dos seus três primeiros? Como pode ter sido tão idiota ao acreditar que aquilo sim, afinal,  era um amor verdadeiro?

Quando o avião pousou em Nova York, já tinha preparado o troco. Ele ia pensar nela sim, todos os dias, várias vezes por dia. Desta vez não ia telefonar, nem enviar e-mail, nem pombo correio, nada. Queria ver se depois de uma semana sem notícias ele ia continuar sem pensar nela. A menos, é claro…
“Ai meu Deus, que diferença fará se ele não me ama mais?”   

Ao chegar ao hotel, já tinha certeza: o amor havia acabado!  Gabriel continuava com ela por hábito, conformismo, talvez até mesmo pena… Sentiu que sua vida acabaria com o fim daquele amor. Como viver sem ouvir “oi, querida”, “eu te amo tanto” e tantas outras coisas que aqueciam a sua alma?  

Mudou de planos.  Sim, cortaria os pulsos. O remorso o faria pensar nela todos os dias.  E sofrer todos os dias. Não, cortar os pulsos seria pouco. Precisava ser mais traumática.  Decidida, dirigiu-se à janela do sofisticado hotel no coração da grande maçã. Assim seria mais fácil acabar com aquele sofrimento.  Aos prantos, Marilda Helena, abriu a janela e viu a cidade lá embaixo. Tudo parecia pequeno e desfocado, a vista anuviada pela torrente de lágrimas.  De repente começou a reconhecer alguns luminosos. Prada, Armani, Versace…
“Pensando bem, a vingança pode ficar pr’amanhã”, pensou. 

Munida de bolsa, casaco e cartões de crédito, a mão na maçaneta, pronta para sair, toca o telefone.  Com seu sofisticado sotaque britânico, forjado durante o doutorado na Bristol School of Sociology, ela atendeu:
“Hello?”.

“Oi, meu amor.  Liguei para te dizer que refleti, anotei cada vez que sua imagem vinha à minha mente e cheguei à conclusão que sim: eu penso em você todos os dias, em média umas duas vezes e meia”, disse com a voz dulcíssima, um apaixonado Gabriel.

Marilda Helena, mais feliz do que nunca e sem forças para responder, pensou:
“Meu Deus, e eu jurei que não casaria de novo com um engenheiro?”

O fracasso do Cesar Cielo

4 de agosto de 2012

Na mesma tarde em que Cielo ganhava apenas o bronze em Londres aconteciam algumas situações interessantes:

  • Os campeões olímpicos do vôlei de praia, os norte-americanos Rogers e Dalhausser, perderam para uma pouco votada dupla italiana e estão fora.
  • No estádio olímpico, na primeira tarde do atletismo, o panamenho Salinas campeão em Pequim, nem passou no corte do salto em distância. 
  • Chamou atenção o carinho dos ingleses com as suas representantes nos dez mil metros. As duas deram a volta olímpica sob calorosos aplausos após terminarem nas 7ª e 8ª posições na prova. 

A surpreendente saída dos americanos não causará dano ao desempenho da maior nação do planeta enquanto que para o Panamá a desgraça olímpica está sacramentada.    Mas o que tem o Cesar Cielo com isso?

A situação dos nossos atletas é parecida com a do panamenho.  São poucos os que têm chance de ganhar.  Uma característica bem brasileira é querer que nossos desportistas sejam heróis nacionais e que nos redimam de toda a desorganização social e vergonha política que nos levam a desempenhos pífios como nação, não só no esporte. 

O desempenho brasileiro nas olimpíadas é proporcional ao desempenho tecnológico, científico e social do país.  Enquanto nos EUA todas as crianças vão à escola e lá recebem boa educação e praticam esportes desde o primário até a universidade, aqui não damos a mínima para a isso.  Tem sido assim desde a ditadura dos anos 60 e 70 até o governo de esquerda do século atual, passando pelos liberais dos anos 90.  Governo algum deu real prioridade à educação.  

Sarah Menezes, a heroína do Piauí

Enquanto os gringos dão condições a todos mas premiam os melhores e mais ainda os fora-de-série, aqui fazemos tudo para nivelar por baixo.  Em vez de educar desde o início para permitir que todos possam disputar em igualdade o acesso aos cursos superiores, fazemos, através das “cotas”, que gente despreparada alcance a universidade, o que prejudica o desempenho de todos.

 Não adianta colocar dinheiro e esperar que a grana se converta em medalhas.  Estas são conseqüência de um trabalho de base, junto com a educação.  Só com massificação se pode gerar e identificar talentos na qualidade e quantidade necessárias.  Isto vale para o esporte e, principalmente, para o desenvolvimento tecnológico e social do país.  

Sem isso continuaremoa a ter apenas um Cielo aqui e um Nicolelis ali e, sobre estes poucos, o enorme peso de carregar um Brasil nas costas.   

O único que tem direito de achar que fracassou porque não chegou em primeiro é o próprio Cesar Cielo. Aqueles que pouco fazem para tornar este um país de primeira linha têm mais que dar-lhe os parabéns pela conquista.  Não é nada fácil chegar lá.   

Fotos: Sarah Menezes (site Exame.com), Medalhas Olímpicas (site zupi.com.br)

Cores de Curaçao

1 de agosto de 2012

Fotos by Cariocadorio (Curaçao, julho de 2012)