Geraldo Gargalhada

Geraldo Gargalhada, Geraldo Colombo… Meu grande amigo Geraldo.

Naquele dia em que nos encontramos em uma exposição de carros de corrida no Estádio de Remo e depois caminhamos até o pequeno parquinho em frente à hípica na Lagoa, a minha vida começou a mudar. O mundo começava a tornar-se maior que a família, a escola, o edifício e o clube.  Havia uma intensa alegria nos seus olhos quando brincávamos inocentemente no auto-pista, o carrinho de bater.  Não sei como se estabelece a passagem da infância para a adolescência nem mesmo se é desta passagem que eu estou falando.  Mas foi definitivamente, uma passagem.

A paixão pelo automobilismo era coisa rara naqueles tempos em que o Chico Landi já não fazia sucesso e um desconhecido Emerson Fittipaldi ainda dava suas primeiras entortadas nas precaríssimas pistas brasileiras.  Essa paixão catalisou nossa amizade por anos a fio. Juntos freqüentamos o clube, a praia, as festas, passamos tantos carnavais em Cabo Frio, fizemos vestibular e jogamos fora incontáveis longas conversas pelas esquinas de Laranjeiras.  Mas mais do que tudo respirávamos automobilismo. 

Na minha casa, Natal de 1974

Geraldo virou família.  Assistíamos aos GPs lá em casa, o meu pai junto. Papai abria uma cerveja que bebíamos acompanhada de sardinha na rodela de pão francês.  O Geraldo passou a chamar o Velho de pick-up quando soube que um dia seu apelido fora João Vitrola.  De vitrola para pick-up foi um passo.  O apelido que só ele usava era sua forma de mostrar que a pessoa era especial para ele. Em algum momento eu mesmo virei Jotacê.  Geraldo tinha também um caminho diferente de todo mundo para cada destino. Literal e literariamente falando.

Viramos ratos de autódromo no Rio e em Interlagos. Fomos ajudantes de mecânico, torcedores de arquibancada, comissários de box na Fórmula 1, bandeirinha de pista  tudo mais.  Graças ao Geraldo conheci de perto os ídolos nacionais da época.  Sentávamos para almoçar com eles após as corridas na Barra, ouvíamos histórias de automobilismo e até contávamos as nossas.  Seu carisma e sua inconfundível gargalhada abriam todas as portas.  E eu ia junto.  Éramos felizes e sabíamos muito bem disso.

 A vida de engenheiro não foi fácil a partir da década perdida de 80.  Geraldo buscou a sorte em São Paulo e por lá ficou. Era janeiro de 1990 quando tocou muito cedo o telefone lá em casa.  Acordamos meio assustados naquele frio danado que fazia em Madrid.  Era o Geraldo, para que eu não me esquecesse do meu aniversário de casamento, como fazia ano após ano.   

A distância e o tempo têm o implacável efeito que os mais rodados já aprenderam.  As notícias ficaram escassas até sumirem de vez.  Mas há uns cinco anos decidi procurá-lo.  Quando nos falamos parecia que tudo havia sido ontem.  Seguimos trocando emails, fotos e finalmente nos encontramos e jantamos com as respectivas em uma noite memorável.  Resumimos os últimos quinze anos naquelas poucas horas. Este blog, com as coisas do automobilismo, ajudou a manter o contato à distância. 

 Não me dei muita conta quando ele deixou de responder a um email. Este mês no dia do meu aniversário, vim a saber por caminhos que só o Geraldo poderia traçar, por que ele não havia respondido. Há pouco mais de um ano e meio, em algum ponto da estrada entre o Rio e São Paulo, os improváveis caminhos do meu amigo o levaram inexoravelmente para longe nosso convívio.    

Como disse, não sei muito bem como se estabelecem as passagens de uma fase a outra da vida. Sinto apenas que eu estou vivendo mais uma e, mais uma vez, o meu querido Geraldo está novamente presente.

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8 Respostas to “Geraldo Gargalhada”

  1. Salete Bernardi Says:

    Po
    xa, Pouco vi o Geraldo, desde nossos tempos de grupo Motin, mas guardei sempre uma excelente lembrança. Sinto muito que ele tenha partido tão cedo, e sinto muito pela sua/nossa perda.

  2. Rita Says:

    Pois é, mas não entendi se o Geraldo morreu ou não, no penúltimo parágrafo dá-se a impressão de que ele morreu na estrada que liga Rio à S. Paulo. No último ficou subentendido?

  3. Baby Says:

    Triste mesmo…. e a gargalhada dele era ótima! Q pens

  4. Cid Lavrador Says:

    Um post sobre amizade, que é uma das coisas mais importantes para se viver bem. Já tive amigos de primeira qualidade que não estão mais aqui. Sempre lamentei não ter aproveitado mais a presença deles. No entanto, continuo não me esforçando mais para procurar os que ainda estão disponiveis. Tenho que corrigir isso urgentemente. Os laços de amizade são mais necessários que as coisas materiais que às vezes perseguimos. Abraço,

    Lavra

  5. Antonio Seabra Says:

    Lendo hoje o teu texto,me senti compelido a escrever pra dizer que me tocou bastante. Eu e o Geraldo estudamos juntos, Colegio São Bento, mas não fomos amigos da primeira hora. Eramos apenas colegas de colégio.
    Eu já era apaixonado por automobilismo desde pequeno, 11-12 anos e tal, lia tudo que me caía nas mãos. Mas nunca comentei na escola,não havia interesse dos colegas, que so queriam saber de futebol. Automobilismo não existia pra eles, não era nem esporte. Jim Clark, Graham Hill, Cris Amon, Bird Clemente eram nomes fantasmas, que ali ninguém alem de mim conhecia… Nunca imaginei que o Geraldo fosse se interessar, muito menos que gostasse e conhecesse.
    Larguei o futebol de lado e fui viver fuçando automobilismo. Rato de oficina, de autódromo, de pegas nas madrugadas, Curva do Calombo, Alto da Boa Vista, Postinho (s), sei lá mais o que, de qualquer lugar que cheirasse a gasolina de alta octanagem. Um dia encontrei o Geraldo num autódromo da vida. conversamos, mas ainda não foi dai que nasceu a amizade.
    Em 1975 encontrei o Geraldo em Interlagos, no treino da Formula 1, assistimos juntos, ambos torcendo pelo Pace. Coincidência ?
    No dia seguinte o Moco venceria, mas não encontrei o Geraldo pra comemorar. Chorei sozinho, no ombro da minha mulher, a enorme emoção pela primeira vitoria do meu segundo maior ídolo, depois do Bird. Anos mais tarde, choraria com igual intensidade pela morte do Moco.
    Voltei a encontrar o Geraldo num Salão Nautico, trabalhando com o Paulo Renha. Eu fazia ski aquatico, logo, também gostava de lanchas. Aliás, Engenheiro Mecanico, gostava de tudo que tivesse motor e se movesse rápido.
    Começamos a nos tornar mais proximos, ele me contava todo o trabalho (maravilhosamente impressionante) que estava tendo pra reunir toda a turma que estudou conosco no CSB, Só o Geraldo seria capaz !! Colecionou nomes, telefones, endereços, datas, e começou a contactar todo mundo. Ligava pra todos nos aniversários, aniversários de casamento, comunicava a todos os nascimentos dos filhos dos colegas. Na comemoração dos 25 anos de formatura, juntou incríveis 50-60 colegas de uma turma de cerca de 100.
    Com o advento do e-mail, mantinha todos informados de formaturas e casamentos dos filhos, e, infelizmente, da morte dos pais dos antigos companheiros. O Geraldo era a peça que nos unia, inapelavelmente. Geraldo sabia de tudo de todos, mas, discretíssimo e super honesto, só comunicava aos outros aquilo que não magoava nem ofendia. Levou consigo diversos segredos sobre alguns ex-colegas, que , por mais que o tivéssemos “apertado”, ele nunca contou.
    Por esse tempo o Geraldo e eu já tínhamos uma amizade a prova de chuvas e trovoadas. Nos víamos pouco, mas, nos falávamos as vezes por 2 ou 3 horas no telefone, entre Rio e SP, E, mais tarde, em enormes e-mails. O elemento de ligação era o o automobilismo, mas, havia muitas outras confidencias, coisas de trabalho, de família, e do coração.
    Jamais faltou um telefonema do Geraldo no meu aniversario, meu da minha mulher, aniversario de casamento. Eu, pelo meu lado, não tinha o mesmo cuidado com ele.
    Por essa época, depois de muitos anos afastado (fisicamente, apenas) dos autódromos e dos carros de corrida, comecei a ir a Interlagos outra vez. Dai, para escrever nos blogs de automobilismo, foi um pulo. Quando saia uma cronica escrita por mim, e, no dia seguinte eu voltava ao tópico para ler os comentários, o aplauso do Geraldo estava sempre lá.
    Um dia ele me falou que o Jan (Balder) ia lançar o livro dele, e que haveria noite de autógrafos em SP. Eu não poderia sair do Rio, por razões de trabalho. Dois dias depois o Geraldo me liga, me mandando buscar uma “encomenda” no escritório da Claudinha, aqui no centro do Rio: era o livro do Jan, autografado e dedicado a mim, presente do Geraldo !
    Tempos depois, debatendo sobre os livros de automobilismo que havíamos lido, ele me mandou o cadastro quantitativo e qualitativo da biblioteca dele. Eu tinha lido praticamente todos, mas não os tinha mais, nunca fui de guardar livros, sempre os cedi para alguém, depois da leitura. Mas eu tinha guardado alguns títulos que ele não tinha lido. Mandei todos para o Geraldo, inclusivoe o “Piloti… Che Gente”, do velho Enzo, escrito em italiano, que virou uma obras preferidas de sua coleção !
    Hoje, entre os pouquíssimos livros que eu guardo, com enorme prazer, está o livro do amigo Jan, dedicado, presente do meu super amigo Geraldo…
    Em 2011 fui a Italia, visitei Maranello e brinquei de alugar diversas Ferraris e Lambos. Quando publiquei as minhas impressões e as fotos no blog de uma amigo, um dos primeiros comentários foi do Geraldo. Naquele mesmo ano, resolvi guiar em Interlagos, apesar da pista mutilada, do novo traçado que tanto me incomoda. Me inscrevi num curso do pilotagem, e voltei a andar forte (até me surpreendi de ainda ser capaz) aos 57. Demorei a publicar o texto e as fotos da segunda parte do curso. Esperei pelos comentários do Amigo, que não chegaram. Não me preocupei, a qualquer momento iriamos nos encontrar, e isso seria assunto pra mais algumas horas de papo.
    Passou o tempo, no meu aniversario faltou o telefonema habitual dele, mas eu não me atinei para essa falta.
    Quase 1 ano depois, encontrei o Mesquita na 1° de Março, em frete ao Palácio Tiradentes, defronte ao meu escritório. No meio da conversa, eu falei: “Preciso ligar pro Geraldo, vou fazer isso hoje !” ao que ele me retrucou que eu não iria poder. Ai, mandou a noticia bombástica. De principio, não acreditei, pensei que só podia ser uma brincadeira sem graça do Mesquita. Mas me rendi a seriedade estampada no rosto dele.
    Que merda !!! O Geraldo que dava as noticias boas, mas que também dava a noticia do passamento dos amigos mais apressados pra ir embora daqui, não teve quem me desse prontamente a noticia triste sobre ele. E eu, amigo relapso, só soube quase 1 ano depois…Pensei em ligar pra Claudinha, mas não tive coragem. Liguei pra alguns outros colegas de CSB, que apenas me confirmaram aquilo que eu teimava em não acreditar.
    Não PC (me perdoe a intimidade), ele não partiu de um ponto qualquer da Rio-SP, numa das muitas viagens de carro dele. Teria sido mais bonito. Ele se foi num acidente estupido, numa visita a um cliente, em um ponto qualquer do estado de Minas, inspecionando uma maquina industrial. A máquina, pesadíssima, caiu do pedestal e atingiu o nosso amigo, que, espero, não tenha tido nem tempo de perceber o que aconteceu. Só sei que é muito triste.
    Do mesmo modo que você, PC, eu também não acho que ele não esteja mais conosco. Tanto é que ainda não apaguei o numero dele da lista de contatos dos meus celulares.
    Ele estará sempre vivo nos momentos muito bacanas que dividimos, ao vivo, no telefone e pela internet.
    Ele é um grande cara !!! Grande amigo.
    Algum dia ele vai nos contar dos papos que anda tendo com o Jim Clark, com o Moco, com o Luisinho, etc.

    Se você quiser algumas poucas fotos mais recentes do Geraldo, me manda um e-mail. Tenho duas, da ultima vez que tomamos uns whiskies junto com alguns colegas do CSB. Adoraria ainda ter a foto que ele me mandou, muitos anos depois, da gente na arquibancada de Interlagos, no treino da F1, em 1975. Mas essa foto se perdeu num PC que deu pau, aqui em casa.

    Antonio Seabra

    Ps – desculpe o comentário gigante.

    • cariocadorio Says:

      Antonio,
      Nenhum comentário será grande demais para falar do Geraldo. São poucos os que ainda tenho algum contato que conheceram o Geraldo.
      Você vai encontrar mais fotos em outros posts aqui, como o Amigos em Interlagos. Tenho muitas ainda, mas em papel. Quando digitalizar mando pra vc.
      Muito obrigado pela participação e por esclarecer como este nosso amigo nos deixou, por enquanto.
      Forte abraço, JC

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