Archive for the ‘Contos Cariocadorio’ Category

Intimidades num voo noturno

9 de julho de 2018

Marcello Senna ainda tinha esperança de que a poltrona da janela ao lado ficasse vazia quando a simpática moça com uma camiseta Carioca em forma de Coca-cola, pediu licença pra passar.

Cansado da semana de reuniões, Marcello bem que tentou evitar a conversa. Não conseguiu. Boas noites, obas e olás, ela não falava bem inglês, trabalhava no INPI e vinha de San Diego onde foi ver o namorado.  Marcello mais preocupado com o Sudoku inacabado na mesinha.

O papo seguiu e ela falou sobre os pais… que sua mãe, ainda nova, começou a sofrer com a perda da memória.  No supermercado a roubavam no troco, se perdia na rua … Marcello se interessou. Sabia bem o que era isso. Seu pai cuidara de tudo até o Alzheimer tomar conta logo após a perda da esposa. Desgraças a parte, riram bastante das situações tragicômicas dos seus idosos.

Dois largos bocejos, Marcello virou-se e dormiu suas quatro horas de praxe.  Acordou com a moça quase sentada no peito na tentativa de ir ao banheiro.  Tudo bem, já iam mesmo servir o café da manhã.

Perguntado Marcello falou da sua Estela e dos gêmeos que o esperavam no Rio. Foi então que Mariana, acho que era esse seu nome, se sentiu a vontade pra contar a história da sua vida.

O namorado, que fazia pós-doutorado em San Diego, era sua primeira recaída diante da raça de crápulas que são os homens.  Conheceu o ex-marido no parque infantil do Fluminense.  Depois estudaram no mesmo São Vicente de Paulo. Jovens profissionais, chegaram ao Instituto Nacional de Pesquisas Industriais, o INPI, na Praça Mauá.  Aí começaram o namoro e casaram alguns anos depois. Com muito bom humor, a carioca seguiu contando sua história para um agora interessadíssimo Marcello.

Três filhas em idade escolar depois, ela começou a desconfiar de alguma coisa.  Jogar um pequeno verde foi o suficiente pra colega de trabalho contar o que só ela no INPI parecia não saber. O sacana do marido não só teve duas “namoradas” depois de casado como uma filha com uma delas.  Pior, as duas trabalhavam no mesmo departamento de patentes que ela e a filha da outra frequentava as festinhas de aniversário em sua casa desde sempre.

Marcello não podia acreditar; meu Deus, esse cara é bom!, pensou.

Quem? Eu?

Certa noite, crianças dormindo,  chamou o marido na chincha.
Ele negou… era tudo mentira, queriam derrubá-lo da gerência, que podia explicar, que isso, que aquilo. Mas tava difícil, ela sabia até dos detalhes.    Ele insistiu que a amava, que queria seguir com a família, que isso não se repetiria…

Isso o que? …outra namorada?… ou seria outra filha?, se perguntava Marcello.

Finalmente o safado concordou em sair de casa.  Ela foi generosa e deu um mês pra ele arranjar um lugar. Passaram dois e o cara fingindo que as coisas estavam voltando ao normal. Ela deu um ultimato.  Ele tinha dois dias pra sumir de casa pra sempre.

O coitado, do fundo do seu sofrimento, ainda tentou argumentar:
“Mas por que é que você está fazendo isso comigo?”

 

Fotos: Flight CO-092 (Maio 2010, by Cariocadorio);  Quem, eu?  (Maio 2010, EP, by Naj Olari, Flickr Creative Commons)

Nota: baseado no post “Houston-Rio CO-092” de 30 de outubro de 2010.

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A natureza do Escorpião na Copa da Rússia

29 de junho de 2018

Numa ilhota no meio do rio, a fauna local discutia o assunto do momento.  Não davam a mínima pro STF soltar o Dirceu e liberar a Gleise.  “Depois a gente discute o aumento do plano de saúde”, disse o marreco.  “Isso mesmo. O que interessa é a Copa do Mundo (da FIFA é o cacete!), que a copa é de todos”, concluiu o jacaré sob aplausos.

Ali só tinha entendido dando pitaco: “o melhor foi Portugal x Espanha”: “pra mim foi pênalti claro”; “e que falha do Caballero!”; “esse VAR é uma chatice”; “a Bélgica vai surpreender”; “o Peru se despediu com dignidade”; “tem que abrir o olho com o Uruguai”…

A garça lamentou: “Que vexame da Alemanha, hein? Deixa ela ir mas cuidado que a Argentina tá no páreo”.   O biguá falou e todos concordaram que o México tá jogando como nunca mas vai perder como sempre… Bem, alguns preferiram se calar por enquanto.

A discussão esquentava e o rio subia.  Era água muita. A ilhota foi ficando pequena. A garça se mandou voando, as formigas desceram terra abaixo, cada bicho dando o seu jeito.

O sapo já ia pular na água quando o escorpião pediu uma carona.

             

“Me leva nas suas costas até a margem. A gente continua a conversa”.

“Negativo, e se você me der uma ferroada?”, retrucou o sapo.

“Tá louco? Se eu fizer isso morro afogado”.

O sapo concordou e a discussão continuou no caminho:

E os craques? O sapo reclamava de todo mundo. “O Messi não tem sangue, não vibra, não se esforça.  O Neymar (o Jr., que fique claro) quer a bola só pra ele, é um cai-cai danado, assim não dá.  E o Gajo? Joga muito mas tá mais preocupado em se ver no telão.  Acabou perdendo pênalti”.

O escorpião contemporizava: “Pacote completo. Eles são assim mesmo. É da natureza de cada um”.

Chegando na margem o escorpião desceu das costas do sapo e sentenciou: “Na minha opinião a Croácia do Modric chega na final”.  O sapo apostava num Brasil x Espanha, “apesar de tudo”.

A garça, que via a cena lá de cima, interrompeu: “Peraí! essa história não devia terminar com uma ferroada no sapo e os dois morrendo no rio?  É da natureza do escorpião, ou não é?”

“Claro que é!”, explicou o artrópode peçonhento.   “Mas na hora H, se a gente quiser continuar vivendo tem que fazer concessões.  O Cristiano teve a lição dele, o Messi já fez gol e o Neymar… Bom, o Neymar  entendeu que se ficar irritando o adversário, o juiz e a torcida não chega a lugar nenhum.  E já tá começando a jogar pro time.”

“Vamos torcer, e que vença quem ganhar!”
“E que seja o Brasil”, piou o biguá voando pra Lagoa Rodrigo de Freitas.

Ilustração obtida na internet: jornalggn.com.br  

Meu Amigo Justino

19 de dezembro de 2017

O que chamou sua atenção foi um princípio de bulling lá pelo terceiro ano ginasial (só aprendemos que essa velha maldade se chama bulling recentemente, graças aos americanos).   Sempre tinha alguém pra pegar no pé e ficar sacaneando em grupo.  Muito alto,  quatro-olhos ou meio tímido, qualquer diferença era motivo.

No caso do Justino não foram os óculos com lentes fundo de garrafa nem o nariz entortado pra esquerda. Tampouco por ser vascaíno, coisa rara na zona sul do fim dos anos 60.   Foi por conta do nome que o Justino teve seu tempo de “pele” daquela turma do Pedro II.  Eram muitos Eduardos e Paulos, vários Luiz Alguma Coisa mas Justino, só ele.  Mais, nas listas de todas as turmas do colégio coladas no vidro do refeitório só aparecia um Justino.  Ele.

Por que? Não tinha parentes próximos nem algum Justino famoso que justificasse.  Por alguma razão, respeito talvez, nunca perguntou aos pais. Naquele tempo tinha esse negócio de respeitar os mais velhos.  A zoação (esta aprendemos com os paulistas) passou e o Justino não tocou mais no assunto.

Na terça passada entrei no Paglia e Fieno mais tarde que o habitual.   Estava vazio, retrato da crise. No fundo do restaurante três homens de terno aguardavam o almoço. O cara junto à parede parecia familiar. Caramba, desde os tempos do vestibular, fazia mais de 40 anos.  Minto, na verdade foi depois, no pilotis da PUC. Ele cursava Direito e eu Engenharia.  Ainda assim, mais de 40 anos. Seria ele mesmo?

Fixei o olhar. O nariz meio torto pra esquerda dirimiu as dúvidas.  Me dirigi célere até a mesa. De repente um dos homens levantou-se e se interpôs com firmeza.  Estanquei assustado, percebi que o outro buscava algo no paletó e instintivamente levantei as mãos.

O que me salvou não foi o nariz torto do Justino, mas o meu próprio nariz arrebitado.   O homem junto à parede freou os outros dois com um gesto, abriu um sorriso pra mim e falou:

— Batata???

Era eu.  Era o Justino.  O do nariz meio torto e o do nariz de batata da turma do ginásio.

Sentei-me à sua frente e nos 40 minutos seguintes atualizamos os últimos 40 anos de nossas vidas.  Ele já tinha seis netos dos quatro filhos, todos meninos e eu na primeira netinha, Helena, recém-nascida.  De como fui parar em Londres e por lá fiquei tantos anos.  De como ele ficou no Rio e seguiu a carreira no ministério público. De repente me lembrei da história do nome.

Com brilho nos olhos, Justino contou que há pouco tempo, revirando as heranças do pai, encontrou o diploma do bisavô de quem nunca tinha ouvido falar.  O documento tinha mais de metro, uma fita verde e amarela perfeitamente conservada e dizeres mais ou menos assim:

FACULDADE DE DIREITO DA CIDADE DO RECIFE

Eu, Fulano de Tal, tendo presente o termo de aptidão ao Gráo de Doutor obtido pelo Sr. Justino Resende de Sá e Oliveira, natural do Rio de Janeiro, filho de José Francisco de Sá e Oliveira, nascido no dia 2 de agosto de 1861… pelos poderes que me são outorgados…

…Mando passar ao dito Senhor, esta Carta de Doutor em Ciências Jurídicas para que com ella gose de todos os direitos e prerrogativas das Leis do Império.

Por ordem de D. Pedro Segundo
Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil  
Recife, 18 de novembro de 1885.

Sabe os amigos do Justino que quase me matam de susto?

Seguranças…  Recentemente, o meu amigo Justino, aliás,
V.Ex.a, Meritíssimo Juiz Dr. Justino Ventura de Sá e Oliveira,
colocou dois conhecidos políticos cariocas pra ver o sol nascer quadrado lá em Benfica.

Muito obrigado meu amigo.  Seu nome é o que tinha mesmo que ser.

 

Foto by Cariocadorio
Nota:  Esta é uma obra de ficção.  Qualquer semelhança com personagens e fatos reais terá sido mera coincidência. 

Copa da Espanha, 1982

3 de junho de 2014

O menino Nilton Santos se preparava para assistir o jogo mais importante da sua vida. Não era por acaso que ostentava esse nome glorioso.  Exigência do Vovô Santos que não permitiria  outro que não fosse o do seu maior ídolo.  Na verdade, queria dar este nome ao  próprio filho mas vovó Marlene decidiu homenagear seu recém falecido pai e batizou o menino de  Edilson.   Tudo bem, pois o pai de Nilton Santos desde pequeno atende pelo apelido de Didi.

A família se reuniu para ver Brasil x Itália. Nilton Santos vestiu a camisa canarinho e se enrolou na bandeira do seu amado Botafogo.  Antes do jogo a  TV mostrava  os gols da formidável campanha brasileira. Nada parecido desde 70.  Vitória apertada sobre a Rússia na estréia e surras em Escócia e Nova Zelândia. 

Melhor ainda, o convincente 3 x 1 na Argentina ao som de “voa canarinho voa”.   E como jogava bonito o time de Telê!  Quantos craques, Zico, Sócrates, Falcão, só pra falar nos mais votados. E no gol ninguém menos que Waldir Peres…bom, nada é perfeito.

Mas a coisa não começou como esperado.  De cara Paolo Rossi abria o marcador.  Mas o que é isso?  Como aquela Itália que chegou ali aos tropeços, empatando os três jogos da primeira fase, ia criar problema?  Claro que não, Sócrates empataria logo depois. Fez-se a ordem e a alegria voltou a imperar na casa da família Santos. Alegria que foi esbarrar em outro gol do endiabrado italiano. No segundo empate do Brasil a confiança retornou até que Paolo Rossi fizesse o terceiro, colocando a Itália definitivamente na frente.

O jogo chegou ao fim.  Consumava-se a tragédia do Sarrià.  No apartamento de Niterói ouvia-se um silêncio sepulcral. Diante da TV, Nilton Santos não podia acreditar no que via.  Em prantos, o menino buscou a saída nos olhos do pai:

“E agora, papai?”
“Agora fodeu!”,  sentenciou um perplexo Didi.

Foi um duro golpe naquela que foi uma das melhores equipes de todos os tempos.  Pouco importa que a própria Itália viesse a ser campeã pela terceira vez igualando o número de conquistas do Brasil.

A história das copas por Cariocadorio:
https://cariocadorio.wordpress.com/category/copas-do-mundo/

Fotos obtidas na Internet

O colesterol e a qualidade de vida

18 de abril de 2013

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O Dr. Júlio analisou minuciosamente os resultados do check-up anual do paciente e procedeu aos exames clínicos com a tranquilidade habitual.  Marcello Senna já estava acostumado com esta rotina e também com o discurso que viria a seguir. Desta vez, porém, o seu médico e amigo de longa data resolveu se estender um pouco mais. 

Estava claro que o Marcello não seguia suas recomendações de fazer exercícios regularmente, melhorar a alimentação, beber menos e dormir mais.  Por isso seus resultados de percentual de gordura, peso, colesterol e outros haviam progredido de mais-ou-menos-meio-ruim para desastre-total em poucos anos.  

Por mais de uma hora Julinho pacientemente doutrinou seu paciente com conceitos de medicina, estatística, mecânica dos fluidos e o escambal. Explicou que pessoas com percentual de gordura mais alto têm mais probabilidade de fazer derrames, infartos e outras doenças cardio vasculares como seria óbvio prever.  Pior, também morrem mais cedo por conta de outras doenças que nada têm a ver com isso.  Questão de estatística.  Ao concluir disse ao Marcello que se ele viver mais uns dez anos isto não faz muita diferença mas se tiver que ir além… 

Pela primeira vez Marcello Senna pareceu dar importância ao assunto.  Como havia chegado a tal ponto?
Lembrou dos cursos no Crosby College em Chicago no início dos anos 90 com aquela baboseira de qualidade total, a moda pós-reengenharia. Prometiam que seriam mapeados os processos, analisadas as interfaces e eliminadas as ineficiências, sobrando assim mais tempo para o lazer, a família e a saúde. Bullshit, como se diz por lá. 
Implementada a qualidade total eliminaram-se ineficiências, é verdade, porém mais rápido ainda cortaram-se cabeças. O trabalho só aumentou desde então.  Logo vieram os e-mails, os celulares, os blackberrys, video conferências e outros truques para facilitar a vida que só nos tornaram mais escravos do trabalho.   E cadê tempo para acabar com o sobrepeso, o LDL e os triglicerídios do mal? 

Havia, porém, duas máximas do guru Philip Crosby que Marcello considerava verdades incontestáveis.

  • “Insanidade é continuar fazendo tudo igual que dantes e achar que o próximo resultado será diferente”.
  • “Pode ser tarde demais para querer mudar depois que alguma coisa grave (um enfarto, por exemplo) acontece”.  

O tal do Crosby e o Dr. Julinho finalmente o convenceram a tomar uma atitude.  Era isso, qualidade total, de vida!
Naquele mesmo momento Marcello Senna decidiu solenemente que em algum ano desses entrará para uma academia perto de casa e que fará exercícios três vezes por semana na volta do escritório, sempre que der tempo.

Foto: “Hermes Trimegistus” capturada na internet.

Pensei em você

22 de dezembro de 2012

Enfim começava o Natal. Caminhei na Lagoa apreciando a árvore, suas cores e brilhos. Na volta, atravessei a rua entre carros, apitos e buzinas e subi as escadas da igreja de Santa Margarida Maria. Lá dentro, um inesperado presente, um concerto de Natal. 
A sonoridade macia do oboé e o lirismo da arpa preenchiam a igreja e a alma.  Ao deleite da música…

…Pensei em você

Pensei muito em você, meu pai,
Pensei muito em você , meu irmão
E em você, meu grande amigo
Por quem fui rezar

Pensei em você, querida Doninha,
De efêmera presença
Em vocês, Coroões, de tão cara lembrança

Pensei em você que meu lar preenche,
Em você, herdeiro que meu lar enfeita
E nos que logo haverão de enfeitar,

Em você, que meu irmão nos deu
E nos que junto nos fazem família

Pensei em você, tia querida
Em você e seus filhos, meu primo tão cerca,
Em você, primo tão longe, e em todos os seus

Pensei na família que pouco vejo
E naqueles que já não verei

Pensei em você, amigo de canções e sonhos
Que há tanto e tanto divide comigo
E em você, parceiro de cerveja e vinhos

Pensei em você, meu colega de escola
E em você, com quem ganho a vida

Pensei em você, de verdes caminhos
Em você, meu amigo mais velho  
E também em você que veleja comigo

Pensei muito em você
Em quem todos os dias penso
E em você, de quem já não lembrava

Pensei em Deus,
E a Deus agradeci,
Por me ter dado tantos
Em quem tanto pensar.

A mulher e suas razões irracionais

20 de agosto de 2012

“Você vai pensar em mim todos os dias?”, perguntou Marilda Helena, languidamente, com a boca molhada pelos beijos do amado.

“Não sei”, respondeu Gabriel, de pronto.

“Como assim, não sabe?”

“Não sei, eu nunca pensei no assunto… Não posso afirmar uma coisa que não tenho certeza.”

Atordoada, Marilda Helena não disse mais nada. Mesmo à distância pensava nele todos os dias, várias vezes por dia. Como ele pode ser tão insensível? 

Partiu naquela noite com a incerteza a martirizá-la. Ficaria longe do amor de sua vida por quinze dias e ele nem pensaria nela.  Ela era mesmo uma idiota.  Além de pensar nele todos os dias fizera a besteira de confessar.  Pior ainda foi perguntar se ele sentia o mesmo.  Apenas para ele, triunfante, responder “não sei”.  Aquele mesmo “não sei” que torturava sua mente. Se ao menos não tivesse perguntado…

Na escala no Panamá, já concluíra que ele havia perdido o interesse por ela. Talvez nunca tivesse existido amor.  Talvez um interesse passageiro, um desejo que o tempo havia se encarregado de arrefecer. Como pode pensar que este marido seria diferente dos seus três primeiros? Como pode ter sido tão idiota ao acreditar que aquilo sim, afinal,  era um amor verdadeiro?

Quando o avião pousou em Nova York, já tinha preparado o troco. Ele ia pensar nela sim, todos os dias, várias vezes por dia. Desta vez não ia telefonar, nem enviar e-mail, nem pombo correio, nada. Queria ver se depois de uma semana sem notícias ele ia continuar sem pensar nela. A menos, é claro…
“Ai meu Deus, que diferença fará se ele não me ama mais?”   

Ao chegar ao hotel, já tinha certeza: o amor havia acabado!  Gabriel continuava com ela por hábito, conformismo, talvez até mesmo pena… Sentiu que sua vida acabaria com o fim daquele amor. Como viver sem ouvir “oi, querida”, “eu te amo tanto” e tantas outras coisas que aqueciam a sua alma?  

Mudou de planos.  Sim, cortaria os pulsos. O remorso o faria pensar nela todos os dias.  E sofrer todos os dias. Não, cortar os pulsos seria pouco. Precisava ser mais traumática.  Decidida, dirigiu-se à janela do sofisticado hotel no coração da grande maçã. Assim seria mais fácil acabar com aquele sofrimento.  Aos prantos, Marilda Helena, abriu a janela e viu a cidade lá embaixo. Tudo parecia pequeno e desfocado, a vista anuviada pela torrente de lágrimas.  De repente começou a reconhecer alguns luminosos. Prada, Armani, Versace…
“Pensando bem, a vingança pode ficar pr’amanhã”, pensou. 

Munida de bolsa, casaco e cartões de crédito, a mão na maçaneta, pronta para sair, toca o telefone.  Com seu sofisticado sotaque britânico, forjado durante o doutorado na Bristol School of Sociology, ela atendeu:
“Hello?”.

“Oi, meu amor.  Liguei para te dizer que refleti, anotei cada vez que sua imagem vinha à minha mente e cheguei à conclusão que sim: eu penso em você todos os dias, em média umas duas vezes e meia”, disse com a voz dulcíssima, um apaixonado Gabriel.

Marilda Helena, mais feliz do que nunca e sem forças para responder, pensou:
“Meu Deus, e eu jurei que não casaria de novo com um engenheiro?”

Nasceu Maria

7 de junho de 2012

O defeitinho na válvula de mil e poucos reais causou a parada da plataforma e prejuízo de mais de dois milhões de dólares.  Agira rápido para resolver. Talvez por isso a reunião em Macaé, embora duríssima, tenha sido bem sucedida.

Na volta para o Rio, Marcello Senna e o colega conversaram sobre o trabalho e praguejaram contra a ridícula BR-101. Como pode o trecho de estrada no eixo de produção da maior riqueza do país ser tão estreito e perigoso?  Parece que a única obra que fizeram foram as praças de pedágio. A chuva não ajudava em nada.  Passaram por Manilha, o verdadeiro portal do inferno, e pegaram os engarrafamentos do contorno e da saída da Ponte. Vencidos os percalços, finalmente desembocaram na Lagoa. Deixou o colega e seguiu para a maternidade.  Chegaria a tempo de visitar a recém-nascida.

Marcello conhece bem a Casa de Saúde São José.  Ali nasceram seus filhos e sobrinhos.  Foi ali também que, há pouco tempo, fez sua raspagem de próstata. Mas deixa isso pra lá.

Esquecera o número do quarto… À medida que procurava o nome nas portas deixava pra trás o resto do mundo e sentia crescer a emoção. A plaquinha indicava: Maria…Era aquele o quarto.  Abriu cuidadosamente a porta e viu amigos de toda a vida.  Abraçou com entusiasmo a vovó de primeira viagem. Lavou cuidadosamente as mãos e aí sim, beijou com carinho a mamãe e baixou os olhos em sua direção.  Ali estava ela; o pequeníssimo ser humano com o rostinho bem definido, uma penugem morena compondo suavemente a cabecinha e um surpreendente olhar alegremente puro e vivaz.
Naquele instante, como em uma prece, Marcello prometeu cuidar do planeta para tantas Marias e tantos Joãos que precisarão dele por um sem-número de gerações.

Não ousou tocá-la.  Logo veio um choro gentil, rapidinho, como se por dizer alguma coisa.
Seja muito bem-vinda, Maria.    

 Foto by Cariocadorio: Crianças – Rio de Janeiro, 1987

Malditos tachões

13 de abril de 2012

Acordou mais cedo que de costume. Inclinou-se sobre a pia do banheirinho apertado, lavou o rosto esfregando os olhos e caprichou na barba ralinha.  Sem fazer barulho vestiu o jeans ainda novo e calçou as botas baratas. Passou o café, esquentou o pãozinho de ontem e se alimentou para o dia de trabalho. Colocou a camiseta favorita e, sobre ela, a surrada jaqueta.

Beijou a esposa, muito jovem, e saiu de casa sem acordá-la.

Welliton amarrou a presilha do capacete, curtiu por um instante o barulho do motor da Honda novinha e seguiu para o Centro do Rio. Mais cuidadoso que de costume, buzininha tocando entre carros e pedestres, Welliton ziguezagueou pelas ruas do Rio de Janeiro em sua rotina de motoboy.  Concluiu feliz suas tarefas.

Uma chuvinha fina caiu sobre a cidade no fim do dia. Com a capa de plástico Welliton pegou o caminho de casa.  De repente o ônibus raspou no cone de tráfego e o jogou na sua frente. Com uma rápida guinada, desviou do obstáculo mas a roda resvalou num tachão.  Enquanto sentia a moto escapar debaixo de si ainda pensou:

“Malditos tachões”!

Nada mais a fazer.  A moto tombou e deslizou na direção do guardinha que, insanamente, controlava o tráfego no meio da avenida movimentada.

Do asfalto, após seu corpo quicar várias vezes sobre os tachões, Welliton viu pessoas correndo em sua direção. Viu o guarda caído mais adiante. Em vão tentou se mexer. A vista foi ficando turva e as forças lentamente abandonando seu corpo.

Amanhã a jovem esposa do motoboy acompanhará o marido pela última vez.  No seu ventre, o sonho do casal ainda não sabe que nascerá sem o pai.

Menos mal para o controlador de tráfego que em seis meses poderá voltar ao trabalho.  Esperemos que nunca mais para o meio do trânsito pesado da Av. Rio Branco.

Fotos by Cariocadorio.

A corredora da Lagoa

1 de abril de 2012

Caminhar na Lagoa é o seu maior prazer. Aprecia os cachorros levando seus humanos ao passeio diário, a corrida saudável do pessoal, as conversas inacabadas que por ele passam, o vermelho no bico dos patinhos negros, o vôo elegante das graças brancas e tudo mais.  

Há, porém, alguém especial nas suas caminhadas. 
Onde vai ela sempre assim com tanta pressa? Pouco lhe importa. 
O que vale é senti-la chegando e concentrar-se no deleite que se segue.  A pisada firme no cintilante tênis, a meia mal surgindo antes de descortinar as pernas que sobem graciosamente até se esconderem sob o shortinho de tecido leve.  Ah, o shortinho! Ao sabor do vento e das passadas largas, o generoso corte lateral desvenda a dobrinha do bumbum.   

Com os cabelos soltos sobre a blusinha colorida ela se afasta rapidamente em seu vertiginoso correr. Não há sexismo em sua visão da moça. Bem… Um pouco talvez.  Sergio ama cada pedra , cada improvável capivara, cada detalhe do entorno da Lagoa.  A corredora é o licor cassis no seu creme de papaia. 

Mas neste dia nem mesmo a musa aliviava sua angústia.  
Sérgio subiu as escadarias e entrou na igreja de Santa Margarida Maria. Custava-lhe muito concentrar-se em rezar, o pensamento em todos os lugares entre o “que estás no céu” e o “pão nosso de cada dia”.  Sozinho na igreja soluçou um choro infinito. Saiu com os olhos vermelhos e uma certeza no peito.    

Horas mais trade ele se despedia do Dr. Ubiratan Latorre.  Pela janelinha da porta do elevador viu seu pai agradecer a visita. Mãos justapostas no gestual de sempre, a sinceridade de sempre.   Sérgio sabia que era ele quem mais tinha o que agradecer.  Estar com o pai era a certeza do conforto apesar do medo que sentia da barafunda mental do velho médico. 

De noite, cantando os parabéns com o netinho mais novo no colo, Sergio finalmente podia curtir os cabelos da corredora da Lagoa esvoaçando docemente à sua frente.   Sentia-se plenamente feliz.

Fotos by Cariodorio: Igreja de Santa Margarida Maria (Lagoa, Rio de janeiro, janeiro de 2012);  O Curumim da Lagoa Rodrigo de Freitas (Rio de Janeiro, janeiro de 2012)
O Dr. Ubiratan Latorre aparece em:  “A porta do elevador”  e “A quarta idade”.