Archive for the ‘Passagens’ Category

Um dia, um cão

22 de novembro de 2009

Depois de muito pensar decidimos ter uma casa na serra. Tranquilidade, esportes e um clima mais gostoso que o calor do Rio de Janeiro fazem muito bem para recarregar as baterias no fim de semana.  Encontramos uma casa  do jeito que queríamos.  Um pouco mais do que podíamos mas ainda assim fechamos o negócio. 

Meg atenta

Durante as negociações avisei ao proprietário que não poderíamos ficar com o caseiro e muito menos com o cão.   Conversa daqui e dali e ele nos convenceu que o Sr. Daniel  era ótimo e que valia a pena ficar também com o cão. Decidimos, em comum acordo com o Sr.Daniel, fazer uma experiência. 

 E lá estava eu com um segundo animal doméstico.  Uma gata (Tai, de “Um dia, um gato“) e  um cão.  Para não fugir da regra o cão é uma cadela, que atende pelo nome de Meg. Quer dizer, atende quando o Sr. Daniel manda, porque os donos da casa conseguem muito pouco com ela.  

A Meg é um pastor alemão que já vai para os seus 8 anos de idade. Tem sempre um ar um pouco triste, exceto talvez quando late ferozmente para os raros transeuntes daquela rua tranqüila.  Ela impõe respeito mas é extremamente afetuosa e carente da  companhia de humanos.  

Meg Tristonha

Quando o Sr. Daniel não está ela invariavelmente penetra na casa.  No início ainda conseguíamos que nos atendesse um pouco mas a Meg logo aprendeu que não podemos com ela.  Entra rápido e se joga no chão.  Quanto mais a gente tenta tira-la do lugar mais ela se ancora de alguma forma.  Já tentei arrastá-la pela coleira mas o bicho é muito pesado e além disso tem um bocão cheio de dentes.  Não acredito que vá  usar contra mim mas prefiro não abusar da certeza.  Certa vez neste processo de arraste ela simplesmente se agarrou na porta com as partas dianteiras. 

Mas sua maior arma é aquele olhar que pede para deixá-la onde está.  Eu não me deixo impressionar por isso mas acabo concordando que fique.  Só pra não contrariar a esposa, é claro.   A Meg é um ser boníssimo … e já faz parte…

Meg Tranquila

Fotos by Cariocadorio, Meg (novembro de 2009) 

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O homem e sua próstata

1 de novembro de 2009

Quando o desconforto ao urinar começou a acontecer  com mais freqüência,  Marcello Senna  tinha acabado de concluir o seu MBA em Princeton e chefiava o setor financeiro de uma indústria brasileira em Suwanee, pequena cidade da Georgia nos Estados Unidos. Tudo ia bem na sua vida. Estela era uma esposa belíssima, aliás ainda é (esposa do Marcello e belíssima) e os gêmeos, Liana e Rafael, eram ótimos filhos. 

A situação piorou um pouco no final de outubro quando as temperaturas começaram a baixar.  Aquela provável infecção urinária teimava em não passar por conta própria.  Decidiu que a primeira visita que faria nas férias seria ao Julinho, seu médico de longa data, assim como de todos nós da turma de 76 do Colégio Pedro II.   

O que mudou o rumo da história foi a comemoração dos 10 anos de sucesso daquela empresa brasileira na América.  A turma da comunicação caprichou em tudo.  Visitas à fábrica, torneio pro-am de golfe, tudo de primeira qualidade para agradar aos clientes vindos de todo mundo.

091101 champagne

Champagne

O gran finale foi o evento chamado Degustação dos Deuses. Absolutamente impecável.  Organizado e conduzido por um fresquíssimo chef francês, vinhos e pratos sofisticados eram servidos em seqüência: Champagne Duval Leroy com caviar russo, Chablis com ostras ao limão e um inesquecível Souternes com foie gras francês. Marcello, que  era  apreciador apenas ocasional de vinhos,  exagerou um pouco naquela noite.

Acordou de madrugada para ir ao banheiro como já era habitual. Para seu desespero, apesar da enorme vontade de urinar produzia apenas um filete insípido.  Após repetir o processo várias vezes, acordou pela manhã decidido a não mais adiar para a vinda ao Rio a consulta médica.  Naquele mesma fria manhã de sábado foi a uma clínica local. 

A cordial recepcionista verificou o plano de saúde e pediu que esperasse na sala ao lado.  A Dra. Melissa J. Young o atenderia prontamente.     

Enquanto imaginava como seria a doutora com tão belo nome (Melissa Young…), Marcello divertia-se com seu hobby predileto: cinema.  Conhecia de tudo mas os clássicos de Hollywood, sabe-se lá porque, eram os seus favoritos.  Costumava mentalizar  cenas inteiras para distrair-se e afastar as preocupações da sua vida agitada. Assim fazia quando uma dulcíssima voz feminina permeou aquele mundo de sonhos.  Num instante a voz, o perfume e a presença da inebriante doutora dominaram seus sentidos. Ela era linda: uma Rita Hayworth moderna, uma sílfide.   Ainda sem fôlego acompanhou a Dra. Young ao consultório. 

Respondeu às perguntas da anamnese procurando disfarçar seu encantamento. Quando ela pediu que acompanhasse sua assistente e tirasse a roupa na sala ao lado ele o fez automaticamente. Sentado na maca de exames vestindo  um ridículo avental aberto, ele viu aquela Deusa entrar na sala e gentilmente posicioná-lo na maca. Na seqüência a Dra. Young introduziu-lhe firmemente o dedo indicador buscando o diagnóstico para suas mazelas.  O inusitado toque na próstata fez Marcello voltar à terra e gemer de dor e de vergonha. 

091030 exame prostata

Exame de Próstata

Recomposto em suas roupas mas não em seu orgulho próprio, Marcello escutava as recomendações da doutora, os exames de sangue e urina, a prescrição de remédio e o diagnóstico provável. O mais importante, porém, seria procurar o quanto antes um especialista.   E escreveu o nome do médico a ser consultado:  Dr. Leonard E. Gay.  No caminho de casa Marcello pensava que se a Dra. Melissa Young fizera o que fez, o que faria o Dr. Gay? 

Estela jamais soube do rápido caso do marido com a Dra. Young.  Durante cinco anos Marcello sofreu as noites de insônia urinária, as dificuldades das longas reuniões de diretoria e outros inconvenientes. Somente então confessou-se ao Julinho e concordou em ver um especialista brasileiro. 

Um ano após uma simples cirurgia de raspagem de próstata, um renascido Marcello comenta orgulhoso:  “Agora o vaso sanitário treme quando eu aponto pra ele”.

Nota: Esse artigo é especialmente dedicado a todos aqueles que já passaram por isso. Porque medo de dentista, medo de falar em público, medo da morte…todos têm os seus medos.  Mas o  medo maior do macho humano, por vários motivos, é o exame de próstata. 

Fotos:  Champagne, by Thurion Laurence, Flickr;  Exame de Próstata, by Recubejim, Flickr

Um dia, um gato

19 de outubro de 2009

Se ir ao cinema não é alguma coisa que eu faça com freqüência, este definitivamente não é o programa favorito do meu irmão.  Ainda assim, como quase todo mundo,  temos os nossos filmes preferidos.  Ele sempre menciona um filme dos anos 60 de cujo nome tomo emprestado o título deste post. O tal gato tinha o terrível poder de mudar a cor da pessoa que ele olhava, deixando de alguma forma exposto o seu caráter.  Imagina soltar o tal bichano no congresso nacional… 

O gato desta história é diferente.  Nem mesmo é um gato e sim uma gata que atendia pelo nome de Tigue.  Atendia é maneira de se dizer  porque, como é usual nestes bichos, a Tigue só atendia quando era do interesse dela.  

Picture 026Após alguns anos de resistência eu cedi aos demais membros da família e permiti que adquirissem um gato. Não sem antes estabelecer os limites para a vida do bichano, onde ele poderia ir ou não, a que horas etc.   Além disso, me garantiram que gato só faz suas necessidades no local apropriado o que provou ser verdade.  Mas ilusão minha achar que alguém impõe limites  a um gato.  A Tigue sempre freqüentou os lugares da casa que ela queria.  Miava pra entrar ou pra sair e algum humano dela acabava abrindo a porta.  Fomos muito bem ensinados.

Na primeira vez que ela entrou no cio o pessoal estava fora e eu passei uma noite em claro agüentando altíssimos e roucos miados. No cio seguinte decidimos arranjar um gato pra ela.  Não deu certo, eles não se entrosaram.   Do alto dos seus 12 anos de idade minha filha concluiu que precisávamos de um gato mais experiente. Funcionou.  Vários meses depois a Tigue deu a luz a cinco gatinhos que, uma vez amamentados e crescidinhos, foram sendo distribuídos. 

Ela tinha uma relação particular com cada um, este interessante animal que gera ódios e paixões.  Aprendi várias coisas com este convívio.  Sobre pessoas e animais.  Tenho certeza de que ela foi importante para a formação das crianças.  Não esperava sentir tanto como aconteceu quando a Tigue se foi.  De qualquer forma continuo não sendo favorável a ter animais dentro de um apartamento.  Apesar da saudável experiência, decidi que não teríamos outro bicho. 

Não atende pelo nome de Tai a nova gata da casa

Não atende pelo nome de Tai a nova gata da casa

Miopia

11 de outubro de 2009

Aquela havia sido uma longa tarde de verão europeu.

Porta di Rodin

Desistimos de ir até a Bélgica preferindo dedicar mais um pouco de tempo à França.  Em Paris os programas de todo turista de primeira viagem.   Louvre, D’Orsais, uma fantástica visita ao Rodin, que infelizmente não estivera no atelier naquele dia, torre Eifel e vários etc entre mais e menos votados.

Mas eu dizia que a tarde havia sido longa.  Saímos cedinho, livramo-nos daquelas intermináreis avenidas que circundeiam Paris e descemos por estradas secundárias pelo vale do Loire.  Interessantes paisagens do interior, cidades pequenas, pessoal simples conversando em cadeiras na porta das casas contrastando com os famosos castelos e igrejas.

Digitalizar0003 E assim, de uma atração à outra, vendo o céu tomar as tonalidades típicas do crepúsculo, seguíamos pelas estradas secundárias da França até chegar às auto-pistas.   Nossa próxima parada, um hotelzinho simples para passar a noite e, pela manhã, seguir para Barcelona.  O mesmo plano das torcidas do Ajax, do PSG, da seleção da Alemanha…todos a caminho das praias da Espanha e de Portugal.  Ficou dífícil encontrar vaga em hotel.  Em algum lugar sugeriram que procurássemos em Sete, uma cidadezinha próxima à auto pista. Aí já estava escuro de vez, o que pelos padrões europeus desta época do ano significa mais de dez da noite. No caminho de Sete os faróis contrários pareciam enormes bolas desfocadas.   Concluí que estava realmente cansado.

Estávamos mesmo.  O hotelzinho de Sete era uma coisa muito triste mas foi o que encontramos por um preço exorbitante pago adiantado.  Subimos ao quarto pela escada velhíssima acompanhando o gerente do hotel.  Ao sair ele apagou as luzes do corredor e das escadas.  Bastou trocarmos um olhar para concluir que era melhor na estrada do que naquela espelunca.  Descemos antes que o  tal gerente fosse dormir.  Pra minha surpresa recuperamos o que havíamos pago e pegamos de volta a tal estrada.  Os faróis contrários estavam maiores ainda.

Dormimos algumas horas no carro, em um posto de gasolina na estrada principal.  Nós e parte das citadas torcidas. Tinha trailler, barraca, tenda e outros arranjos pra tudo quanto era lado.  Valia de tudo pra descansar antes de seguir para as praias ensolaradas da Espanha.  Na manhã seguinte, energia apenas  parcialmente recuperada, seguimos para a terra de Gaudi.  Naquela tarde, muito bem instalados em um hotel 4 estrelas, tive uma dor de cabeça memorável.

DiGaudí

Batlló di Gaudí

Cerca de um mês depois, entretanto,  compreendi que os faróis enormes não eram exatamente do cansaço da longa e alegre jornada em terras francesas.  E mandei fazer os primeiros óculos da minha recém iniciada miopia.

Isso tudo aconteceu lá pelos idos de muitos anos atrás.  Hoje ostento quase inseparáveis multi-focais.

miopia

Fim de texto - Miopia