Posts Tagged ‘ética’

Voe Gol-contra

25 de dezembro de 2010

O sindicato dos aeroviários ameaça paralisar o tráfego aéreo no Brasil em meio às festas de fim de ano. Não dá para simpatizar com a causa de um sindicato que faz isso e fecha a avenida de acesso ao Galeão, entre outras agressões ao direito de ir e vir do cidadão.

Mas se tirarmos por base a maneira como as companhias aéreas tratam os passageiros, seus clientes, podemos imaginar o que fazem com seus empregados.  Deve ser um inferno trabalhar em empresas que não têm a mínima consideração com seres humanos.   

Alguns casos:

1. O vôo está atrasado umas 2 horas mas você, passageiro irresponsável, chegou um minuto depois do horário requerido. Você tem que pagar a multa por chegar atrasado e espera 3 horas para embarcar. Pra eles não pega nada.

2.  O casal conseguiu tirar férias ao mesmo tempo depois de vários anos.  Programaram encontrar com o filho, a nora e o neto – que moram nos EUA – em um resort na República Domenicana.   Uma semaninha só mas a viagem dos sonhos. Pouco antes da viagem a companhia aérea avisa:
   “Seu vôo de sábado foi cancelado, agora vocês viajam na terça-feira seguinte.”
   ” Peraí, não posso adiar minhas férias.” 
   “Sorry, perdeu”
Depois de muita briga eles aceitaram devolver a passagem.  As férias, planejadas com muita antecedência, foram perdidas.  Danem-se os passageiros.

3.  A polícia do Rio invade a Vila Cruzeiro e sitia o Alemão.  Você está em Sampa com vôo marcado às 19:00 horas.  No Rio a família telefona e diz pra ter cuidado e você lá preocupado com a família. Tudo bem, no Santos Dumont não chega o tiroteio.  Só que choveu de tarde em São Paulo e os vôos estão atrasados. 

As informações são as mais desencontradas.  De repente o seu vôo some do painel do portão de embarque.   Os atendentes somem também.  Um bando de passageiros perdidos não sabe o que fazer.  Ninguém da companhia aérea explica o que está acontecendo ou vai acontecer.  Nenhuma informação pelo alto-falante.

Não, isso não é por acaso.  A companhia aérea usa essa tática de desesperar para dispersar os passageiros. Dispersos eles são mais fáceis de enganar.  Há horas a  aérea já sabe que não vai dar para o vôo sair de Congonhas. De repente avisam pra quem está perto.  Com a boca, nada de informar pelo alto-falante.
   “Vamos levar vocês pra Guarulhos.  De lá sai o vôo”. 

A atendente sai andando e quem quiser que vá atrás.
Os covardes só não avisaram que o vôo sai de Guarulhos para o Galeão e não para o Santos Dumont.  Os empregados são claramente instruídos para não informarem que você tem direito a jantar, hotel e vôo no dia seguinte.   Os que moravam em São Paulo decidiram ficar por lá e o pessoal do Rio seguiu para o ônibus.  Para a companhia aérea o inimigo já estava enfraquecendo, cada passageiro escolhendo sua alternativa, vencidos no cansaço.  A tática da desinformação continuava.  Escutei no rádio da atendente que no Rio não haveria transporte do Galeão porque não circulavam táxis e a empresa de ônibus se recusou a sair naquela hora.  O Rio estava em pé de guerra.   Mas em momento algum os atendentes informaram isso aos passageiros.  Boa parte entrou nos ônibus em meio ao caos em frente ao aeroporto.  Para a companhia aérea era melhor despachar covardemente os inimigos e deixá-los mofando até a manhã do dia seguinte no Galeão do que gastar com hotéis em São Paulo.

Decidi tentar a sorte de remarcar o vôo para o dia seguinte. Já passava de meia-noite quando, um grupo de seis pessoas, tomamos uma cerveja no bar do hotel para relaxar e ir dormir.  Os  que sobraram e tentaram ficar por lá contaram com a boa vontade dos atendentes do balcão e foram lentamente sendo colocados em hotéis, o que não foi fácil. 

A Infraero é uma vergonha e a ANAC uma piada. As companhias aéreas fazem o que querem. Duas delas  dominam o mercado sob pífia fiscalização da ANAC.  Os vôos são otimizados a ponto de um problema no aeroporto de Oriximiná causar atraso em vôos de Porto Alegre. E a desculpa é aceita.  Imagina o que as aéreas fazem com as escalas da tripulação e dos atendentes … imagina o que fazem com a manutenção dos aviões para maximizar o lucro.

Quem trabalha nestas empresas  é treinado para enganar, para não respeitar. Ética não é palavra no dicionário dessa gente.  Neste ambiente onde imperam a traição, a esperteza e a covardia, quem teria pudor em fazer uma greve em pleno fim de ano e acabar com a festa de milhares de pessoas?  Eles são vítimas maiores que nós, passageiros. Convivem todos os dias com as companhias aéreas e certamente são explorados e enganados também.

Tenho uma sugestão:  José Mariano Beltrame na ANAC.

 Foto by Cariocadorio: Voe Gol-contra (dezembro de 2010)

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Mais além da guerra do Rio

27 de novembro de 2010

Viver no Rio de Janeiro é contar com o beneplácito de uma natureza bela e generosa. Não fosse o homem, aqui não haveria tempo ruim nem grandes desastres.

A complacência da natureza transferiu-se, por leitura equivocada, ao próprio carioca, que não soube administrar os limites desta dádiva.  Independente da classe econômica ou social, somos causa e conseqüência da falta de rigor ético que nos tem feito aceitar placidamente tanto desgoverno.  Em todos os níveis cometem-se atos de corrupção, assinam-se gatonetes, traficam-se e consomem-se drogas e constroem-se puxadinhos.  O crime está estabelecido desde as favelas às coberturas da Vieira Souto passando pela classe média carioca.

É histórica a tolerância que o brasileiro e o carioca em especial têm para “pequenos delitos” e “erros menores”.  Esta tradição de esperteza, jeitinho e malandragem está mais para conivência, falta de respeito e falta de ética.  Esta é a origem da tragédia que tem sido o cotidiano da cidade nestas últimas décadas.

De repente a elite carioca já não consegue mais se defender com câmeras, grades e blindados. Os mais humildes não suportam mais viver sob o domínio do poder paralelo. E assim a natureza cobra um alto preço daqueles que, parte inseparável e dependente da mesma, não souberam desfrutar sem abusar de tanta generosidade.  Já passamos da hora de mudar o rumo da história.

Tolice seria acreditar que esta guerra será ganha com armas ou uma possível vitória na “Batalha do Alemão”.  Isto é apenas um inevitável começo.  O combate incansável aos bandidos de hoje que não respeitam os direitos humanos dos cidadãos de bem e as instituições estabelecidas é essencial.  Mas há também que, ao mesmo tempo, cuidar para que não se formem novas gerações de bandidos que diariamente alimentam o exército do crime. 

Esta é uma tarefa de longo prazo que vai exigir perseverança nas ações pela educação, saúde e emprego para cidadãos cariocas. Para que todos tenham direito à verdadeira cidadania, sem privilégios nem paternalismos que só acentuam diferenças históricas. Caberá à população orientar nossos líderes, de forma inequívoca, para que conduzam a sociedade neste sentido.

O Rio de Janeiro tem o direito de voltar a ser a Cidade Maravilhosa.  Isto é um dever de todos e cada um de nós.

Foto by Cariocadorio: Lagoa Rodrigo de Freitas (Out. 2009).

Ficha Limpa

27 de agosto de 2010

A campanha política e os acontecimentos que em seu redor orbitam são de fazer perder a esperança.  Não falo de Serras, Dilmas e Marinas mas da classe política e do legislativo brasileiro. 

Mais de um milhão de assinaturas foram entregues ao presidente da Câmara Michel Temer A lei “Ficha Limpa”, uma iniciativa popular, parecia impor certa ordem mas é de difícil aplicação.  Pior, tornou-se mote de campanha. Particularmente por aqueles que tem na vida pública uma folha corrida de participações pouco éticas ou mal explicadas.   

Em São Paulo, Maluf se diz ficha limpa enquanto seus advogados procuram garantir sua candidatura.  No Rio, em situação semelhante, Garotinho parece sofrer uma perseguição política implacável e quase chora diante das câmaras.  E um ex-presidente do Vasco estampa em seus cartazes o selo “Ficha Limpa“. Outros vão pelo mesmo caminho. 

O que seria um pré-requisito essencial para qualquer cidadão de bem tornou-se uma mal usada credencial de campanha. Dos famigerados “rouba mas faz” e “é dando que se recebe” chegamos ao vote em mim porque “roubo mas não provam”.  Quem é honesto e tem  ficha limpa de verdade não precisa fazer campanha para prová-lo.   

Enquanto isso alguns partidos propõe o confronto racial e entre classes socias em suas campanhas. O que mais seriam cartazes do tipo “não existe capitalismo sem racismo”? É razoável ter acesso gratuito aos meios de comunicação para incitar o confronto? 

Tudo isso pode.  Mas fazer o humor com políticos está proibido sob pena de punição (artigo 45 da lei 9.504 sob o pretexto de proibir a sabotagem e os prejuízos à imagem dos candidatos durante o processo eleitoral).  Está censurado, como nos tempos da ditadura.    

A verdadeira Palhaçada Nota de fim de post do site UOL/Folha:  O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres Britto suspendeu na noite desta quinta-feira a legislação que proíbe programas de humor de fazerem piadas com os candidatos que disputarão as eleições de outubro.  Melhor, apesar de tudo, esperança precisa ser a última que morre.

Ilustrações obtidas do blog Espaço 2:
http://espacodois.blogspot.com/

A partir de …

23 de maio de 2010

Os anúncios de jornais e outras midias estão cheios destas ofertas promocionais a partir de um certo preço.  Quase sempre é empulhação.  Carro a partir de é sem o básico e, mesmo que você o queira assim, dificilmente a concessionária tem um por aquele preço.  Sempre vem com alguns acessórios básicos e aí o preço já é mais caro.  Sempre o que você realmente quer custa muito mais.  Mas falemos de bermudas.

Na vitrine de uma conhecida loja de roupas lá estavam duas bermudas cargo .  O preço era claríssimo: R$51,00.  Na saída conferi, nada de a partir de… Entrei na loja. Atrás da mesma vitrine uma estante baixa com as bermudas empilhadas.  Logo a bonita e simpática vendedora me ofereceu:

“Lá atrás temos as bermudas penduradas, mais fácil de escolher.”

Vendedores às vezes atrapalham mas desta vez fazia sentido.  Segui a atenciosa vendedora e comecei a escolher as bermudas. Variavam em cor e em detalhes mas eram praticamente iguais. Após prová-las escolhi duas.  A vendedora as levou para o balcão e informou o preço:

“São cento e trinta e oito reais. Em dinheiro ou cartão?”

Nesta hora entrou em ação o meu rápido e brilhante raciocínio matemático.  Em fração de seguntos percebi que havia algo errado e disse à tal da vendodora.

“Mas não seria cento e dois reais?”

A dita cuja me levou até a pilha de bermudas da entrada da loja e me mostrou do alto do seu cinismo:

“Veja, o preço é a partir de R$51,00…”

De fato, em letras bastante pequenas, como soe ser, lá estava o maldito a partir de.  Claro que eu havia escolhido o mais caro.  Ficava eu entre deixar as bermudas ali ou levá-las por um preço 35,3% mais caro que o da vitrine.  Aliás, na vitrine não havia nem o sacana do a partir de.  Mas como custa-me escolher bermudas, levei assim mesmo.  Eles sabem bem como é, você já escolheu e acaba levando, nos dois sentidos.

TACO

Não há razão para tal diferença de preço da vitrine até o fundo da loja, 8 metros mais atrás. Exceto a técnica desleal de venda praticada pela loja.  Some-se a isso a cuidadosa atenção da vendedora e estamos diante de um caso puro e simples de falta de ética. Triste.
E você, já passou por isso?