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Casa Tolle

15 de fevereiro de 2010

Casa Tolle, o inglês

 Meu avô Abel trabalhou em uma certa Casa Tolle, em São Paulo, no início do século XX.  A recente “descoberta” de uma fotografia despertou um interesse maior nesse estabelecimento.  A fotografia de 1910 está no artigo “O Guarda-Livros” (clique aqui) que publiquei em 31 de janeiro.  A foto  permite boas ampliações.   No detalhe ao lado, a  vetusta figura do homem que parece ser o dono ou o chefe do escritório remete à participação estrangeira na Casa Tolle.   
Os recursos da internet me levaram a um livro disponível no “Arquivo Histórico de Cubatão”, através do site Novo Milênio
Na própria descrição do site:  “Um volume precioso para se avaliar as condições do Brasil às vésperas da Primeira Guerra Mundial é a publicação Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd’s Greater Britain Publishing Company, Ltd., com 1.080 páginas”.   

Casa Tolle e suas fábricas

O que mais chamou a atenção foram as fotografias das diversas fábricas da Casa Tolle.  Elas retratam as mesmas instalações que estão nas fotos ao fundo, no alto, do escritório de São Paulo (Foto completa aqui). Pode-se ampliar o detalhe e comparar com as fotos do livro.  No detalhe abaixo, a fábrica de licores, que é a de #5 da foto do livro.
1. A fábrica da Casa Tolle
2. Seção de águas minerais
3. Seção de refino de açúcar
4. Fábrica de chocolates
5. Preparação de licores   

Casa Tolle, licores

Um pouco da história da indústria brasileira, de finais do século XIX até antes da primeira grande guerra,  está descrita neste precioso livro.  Nela também a explicação da origem do chefe do escritório mencionado acima.  Não tinha mesmo jeito de brasileiro nem de portuiguês …   

O trecho sobre a Casa Tolle está reproduzido abaixo.   

Companhia Indústria e Comércio, Casa Tolle – Os produtos de primeira ordem manufaturados por esta Companhia lhe têm granjeado uma grande reputação, não só em São Paulo como em todo o Brasil. Os ramos de atividade que exercem são a fabricação de chocolate, refinação de açúcar, destilação de álcool e a preparação de Cusenier e águas de mesa.   

A fábrica principal fica à Rua Piratininga, 27, e tem uma frente de 60 metros e uma área de 18.000 metros quadrados. Aí produzem diariamente de 2.000 a 3.000 quilos de bombons de chocolate de várias qualidades, com a marca Abelha, e pode-se sem hesitação afirmar que não é possível obter melhor.   

A produção diária da refinação de açúcar é de 300 sacos de 60 quilos em média. O açúcar em bruto provém de engenhos espalhados por todo o Brasil. Uma outra seção se ocupa do preparo de águas gasosas, das quais a produção é a seguinte: 2.000 sifões de soda e 2.000 garrafas de águas gasosas adocicadas.   

Ainda mais importante é o preparo dos famosos produtos Cusenier, para o que tem a Companhia o monopólio e uma instalação similar  à usada pelos fabricantes de Cusenier em França e que trabalha sob a direção de práticos da casa francesa. O produto é de largo consumo no Brasil, sendo para ele usadas garrafas iguais às do produto francês. Uma grande quantidade de água gasosa Bilz é também preparada nesta seção.   

A fábrica na cidade tem também um maquinismo completo para torrar e moer café, produzindo 3.000 quilos diariamente de café em pó. Tanto o açúcar  como o café são vendidos com a marca Periquito, e, devido à excelência desses produtos, a sua procura nos mercados paulistas é cada vez maior. O maquinismo desta fábrica é movido por um motor a vapor de 450 cavalos e também por 6 dínamos elétricos de uma força total de 2540 cavalos. Emprega o estabelecimento cerca de 170 pessoas.   

Para destilação do álcool, tem a Companhia uma outra fábrica perto da estação de estrada de ferro Varzea e da São Paulo Railway, a uma distância de cerca de 1¼ hora de São Paulo, ocupando uma parte de um terreno de 57.200 metros quadrados de propriedade da Companhia. Esta fábrica destila 50.000 litros de álcool mensalmente, extraído do milho, sendo esta a única fábrica no Brasil que destila álcool de milho. Os maquinismos, que são dos tipos mais modernos, provêm da França e Bélgica e são tocados por motores com 250 cavalos, sendo a fábrica e suas dependências iluminadas à luz elétrica produzida no estabelecimento. Do álcool destilado, cerca de metade é usado na fabricação das águas Cusenier e o restante vendido no lugar. Cerca de 70 homens trabalham nesta seção.   

A Companhia de Indústria e Comércio, Casa Tolle, é na realidade a amalgamação de três companhias: a Companhia Indústria e Comércio, a Companhia Refinadora Paulista e a Société Anonyme des Distilleries Brésiliennes. A firma primitiva, Casa Tolle, foi fundada em 1885 e organizada em companhia nos princípios de 1911 com o capital de Rs. 1.500:000$000, em ações de Rs. 100$000 cada uma.   

Os diretores são os srs. Edward Wysard, presidente; W. Smith Wilson, vice-presidente; J. Copinger-Walsh, diretor-gerente, e B. D. G. Ball, secretário. O sr. Copinger Walsh, que está na América do Sul há 20 anos, ocupa-se dos interesses esde a amalgamação. O escritório da Companhia fica à Rua da Quitanda, 12.   

Fotos: Casa Tolle, o inglês; Casa Tolle, licores  (Acervo pesooal Cariocadorio. Proibida a reprodução sem autorização prévia) Casa Tolle e suas fábricas (do livro: Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd’s Greater Britain Publishing Company, Ltd.)
Link para o site Novo Milênio:
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0300g39eg10.htm

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O Guarda-livros

31 de janeiro de 2010

Casa Tolle - Escriptorio de S.Paulo

A magnífica foto do escritório de São Paulo da Casa Tolle tem um personagem principal.  O jovem Sr. Abel, então guarda-livros da empresa e futuro contador e gerente do Banco Lar Brasileiro. 

O jovem Sr. Abel

Esta foto de 1910 é o registro mais antigo do meu avô, então com 21 anos de idade.  Ele está sentado à esquerda, fazendo jus à sua função de guarda-livros.  A estante atrás dele não deixa margem a dúvidas quanto à origem do nome da profissão. 

Quando conheci meu avô, ele já estava aposentado. A imagem dele que me passavam a minha mãe, tias e avó era a de um homem exigente com tudo e com todos, principalmente consigo mesmo.  Isto parecia destoar um pouco do que ele me transmitia embora sempre tivesse o semblante sério.  Bebia de vez em quando uma Hunderberg e fumava Petit Londrinos Carteira com frequencia.  Com a idade passou a “pegar mais leve”, fumando Lincoln ou Continental (sem filtro, é claro)

Nos dias de festa bebia um pouco mais com seus genros e netos mais velhos e ria “às bandeiras despregadas” das brincadeiras e piadas em família. Com ele aprendi a jogar xadrez e ganhei um livro antigo para estudar.  Chegou o dia que o aluno suplantou o mestre, cuja cabeça já não tinha o mesmo ritmo, mas seguimos jogando sempre com a mesma seriedade. 

 Eram freqüentes os passeios de domingo à longínqua Barra da Tijuca, no famoso DKW Vemag .(link)  Aos 76 anos o velho detonou o Belcar em um acidente com vários carros no túnel Sta. Bárbara.  O carro acabou mas ele se recuperou e seguiu por muitos anos.       

A Remmington

A beleza desta foto está na nitidez e qualidade dos detalhes. A foto possibilitou entender um pouco mais da história porque ela permite ampliações (não deixe de fazê-lo) dos detalhes mostrando as máquinas da época, as vestimentas, mobiliário, o incrível calendário universal e, ainda, detalhes da própria fábrica nos quadros na parte de cima na parede do fundo.   

O velho aparecerá muitas vezes por aqui.  Também a Casa Tolle será objeto de um artigo.  Na minha memória a Casa Tolle em São Paulo era uma fábrica de doces e chocolates. É muito interessante o que pude descobrir desta firma fundada no século XIX. 

Foto e detalhes: Casa Tolle, Escriptorio de S. Paulo (1910); Acervo Cariocadorio, proibida a reprodução sem autorização prévia.