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Mais além da guerra do Rio

27 de novembro de 2010

Viver no Rio de Janeiro é contar com o beneplácito de uma natureza bela e generosa. Não fosse o homem, aqui não haveria tempo ruim nem grandes desastres.

A complacência da natureza transferiu-se, por leitura equivocada, ao próprio carioca, que não soube administrar os limites desta dádiva.  Independente da classe econômica ou social, somos causa e conseqüência da falta de rigor ético que nos tem feito aceitar placidamente tanto desgoverno.  Em todos os níveis cometem-se atos de corrupção, assinam-se gatonetes, traficam-se e consomem-se drogas e constroem-se puxadinhos.  O crime está estabelecido desde as favelas às coberturas da Vieira Souto passando pela classe média carioca.

É histórica a tolerância que o brasileiro e o carioca em especial têm para “pequenos delitos” e “erros menores”.  Esta tradição de esperteza, jeitinho e malandragem está mais para conivência, falta de respeito e falta de ética.  Esta é a origem da tragédia que tem sido o cotidiano da cidade nestas últimas décadas.

De repente a elite carioca já não consegue mais se defender com câmeras, grades e blindados. Os mais humildes não suportam mais viver sob o domínio do poder paralelo. E assim a natureza cobra um alto preço daqueles que, parte inseparável e dependente da mesma, não souberam desfrutar sem abusar de tanta generosidade.  Já passamos da hora de mudar o rumo da história.

Tolice seria acreditar que esta guerra será ganha com armas ou uma possível vitória na “Batalha do Alemão”.  Isto é apenas um inevitável começo.  O combate incansável aos bandidos de hoje que não respeitam os direitos humanos dos cidadãos de bem e as instituições estabelecidas é essencial.  Mas há também que, ao mesmo tempo, cuidar para que não se formem novas gerações de bandidos que diariamente alimentam o exército do crime. 

Esta é uma tarefa de longo prazo que vai exigir perseverança nas ações pela educação, saúde e emprego para cidadãos cariocas. Para que todos tenham direito à verdadeira cidadania, sem privilégios nem paternalismos que só acentuam diferenças históricas. Caberá à população orientar nossos líderes, de forma inequívoca, para que conduzam a sociedade neste sentido.

O Rio de Janeiro tem o direito de voltar a ser a Cidade Maravilhosa.  Isto é um dever de todos e cada um de nós.

Foto by Cariocadorio: Lagoa Rodrigo de Freitas (Out. 2009).