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Curaçao, a Ilha da Curação

27 de julho de 2012

As Cores de Curaçao

No final do século XV, os navegantes portugueses chegavam à América doentes e cansados.  A escassez de alimentos a bordo levava à morte boa parte das tripulações.  Com este cenário desolador, esta ilha do Caribe parecia uma dádiva de Deus, o próprio paraíso.  Bem alimentados com as frutas e legumes colhidos na ilha, os portugueses curavam-se do escorbuto e recuperavam as forças.  Por isso deram-lhe o nome de Ilha da Curação

O mar nem sempre é de almirante

A ilha passou para as mãos de espanhóis e depois para os holandeses da Companhia das Índias Ocidentais.  O nome ficou mas como pronunciar “ão” não é pra qualquer um, a ilha acabou sendo conhecida como Curaçao, mantendo-se pelo menos o “ç” do português.   

Natureza exuberante

Curaçao é hoje um país independente onde se falam vários idiomas, inclusive o local papiamento, mistura das diversas culturas citadas anteriormente.  Mas o povo fala o que for necessário para se comunicar, o que dá um toque de latinidade à sua mais recente formação holandesa.  

Nas ruas de casas coloridas, nas praias de águas verdes caribenhas e nos cassinos cheios de luzes de Curaçao, se vêem desde os branquíssimos europeus do norte até os mais negros descendentes da África, passando por uns tantos latinos de origem ibérica. 

Enfim, um belíssimo lugar, como soem ser sempre aqueles que visitamos quando estamos de férias.

Fotos by Cariocadorio: Curaçao, julho de 2012.
Nota: o barco que aparece singrando as águas pouco tranquilas de Curaçao é o mesmo que está no cais do tranquilo canal da entrada do porto na primeira foto.  

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Viagem ao século XIX

31 de dezembro de 2010

A família na casa da rua São Francisco Xavier (1895)

Viajei ao Rio de Janeiro do século XIX para conhecer meu avô.  Ou melhor, o avô do meu avô, que com cuidado o levava no colo para a foto da família.  Estava lá aquele com quem me diziam ser parecido quando criança: “É o Tio Nonô”, brincavam meus tios quando eu queira ir embora depressa,  impaciente com as intermináveis despedidas dos mais velhos.   

Nesta viagem reconheci pessoas que não cheguei a conhecer. E vi meu avô criança como jamais pensei pudesse vê-lo um dia e, com ele, seus avós, seus pais e irmãos.  Algumas pessoas que em menino conheci maiores e, como soem pensar as crianças, achava haviam sido assim sempre. 

Vovô e suas irmãs (1960)

De repente refleti que o mundo não começa e acaba em cada um de nós.  Que de filhos passamos a pais, depois a avós e depois a alguma coisa distante que será ninguém, mesmo para aqueles que aqui não chegariam se não fôssemos nós.  Até que alguém nos resgate à vida em uma foto de cento e tantos anos atrás.

Seguindo viagem cheguei ao meu tempo e reconheci o vovô como o conheci.  Descobrindo bichinhos nas nuvens, ensinando números nos papéis e me contando incontáveis era uma vez.  Como a inesquecível história do padre que sabia de tudo (aqui).

Não parei aí.  Fui vencendo o tempo e me reconheci num álbum, de um jeito que me vira um dia no agora um passado distante.  Me olhando curioso estava um homem maduro, que acabara de me conhecer naquela foto.   Ao fazê-lo o homem percebeu que estava diante de alguém que jamais pensara pudesse ver criança um dia. E refletiu que o mundo não acaba nem começa em cada um de nós.  E me apresentou ao seu filho, algumas gerações adiante. 

Fotos: A famíla (1895); Vovô e suas irmãs (1960) – arquivo pessoal Cariocadorio. Proibida a reprodução sem autorização prévia.
Notas:  Vovô é o bebê no colo.  As irmãs são a menina em pé à esquerda e a pequena sentada mais abaixo.  Tio Nonô é o rapaz à esquerda.

Casa Tolle

15 de fevereiro de 2010

Casa Tolle, o inglês

 Meu avô Abel trabalhou em uma certa Casa Tolle, em São Paulo, no início do século XX.  A recente “descoberta” de uma fotografia despertou um interesse maior nesse estabelecimento.  A fotografia de 1910 está no artigo “O Guarda-Livros” (clique aqui) que publiquei em 31 de janeiro.  A foto  permite boas ampliações.   No detalhe ao lado, a  vetusta figura do homem que parece ser o dono ou o chefe do escritório remete à participação estrangeira na Casa Tolle.   
Os recursos da internet me levaram a um livro disponível no “Arquivo Histórico de Cubatão”, através do site Novo Milênio
Na própria descrição do site:  “Um volume precioso para se avaliar as condições do Brasil às vésperas da Primeira Guerra Mundial é a publicação Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd’s Greater Britain Publishing Company, Ltd., com 1.080 páginas”.   

Casa Tolle e suas fábricas

O que mais chamou a atenção foram as fotografias das diversas fábricas da Casa Tolle.  Elas retratam as mesmas instalações que estão nas fotos ao fundo, no alto, do escritório de São Paulo (Foto completa aqui). Pode-se ampliar o detalhe e comparar com as fotos do livro.  No detalhe abaixo, a fábrica de licores, que é a de #5 da foto do livro.
1. A fábrica da Casa Tolle
2. Seção de águas minerais
3. Seção de refino de açúcar
4. Fábrica de chocolates
5. Preparação de licores   

Casa Tolle, licores

Um pouco da história da indústria brasileira, de finais do século XIX até antes da primeira grande guerra,  está descrita neste precioso livro.  Nela também a explicação da origem do chefe do escritório mencionado acima.  Não tinha mesmo jeito de brasileiro nem de portuiguês …   

O trecho sobre a Casa Tolle está reproduzido abaixo.   

Companhia Indústria e Comércio, Casa Tolle – Os produtos de primeira ordem manufaturados por esta Companhia lhe têm granjeado uma grande reputação, não só em São Paulo como em todo o Brasil. Os ramos de atividade que exercem são a fabricação de chocolate, refinação de açúcar, destilação de álcool e a preparação de Cusenier e águas de mesa.   

A fábrica principal fica à Rua Piratininga, 27, e tem uma frente de 60 metros e uma área de 18.000 metros quadrados. Aí produzem diariamente de 2.000 a 3.000 quilos de bombons de chocolate de várias qualidades, com a marca Abelha, e pode-se sem hesitação afirmar que não é possível obter melhor.   

A produção diária da refinação de açúcar é de 300 sacos de 60 quilos em média. O açúcar em bruto provém de engenhos espalhados por todo o Brasil. Uma outra seção se ocupa do preparo de águas gasosas, das quais a produção é a seguinte: 2.000 sifões de soda e 2.000 garrafas de águas gasosas adocicadas.   

Ainda mais importante é o preparo dos famosos produtos Cusenier, para o que tem a Companhia o monopólio e uma instalação similar  à usada pelos fabricantes de Cusenier em França e que trabalha sob a direção de práticos da casa francesa. O produto é de largo consumo no Brasil, sendo para ele usadas garrafas iguais às do produto francês. Uma grande quantidade de água gasosa Bilz é também preparada nesta seção.   

A fábrica na cidade tem também um maquinismo completo para torrar e moer café, produzindo 3.000 quilos diariamente de café em pó. Tanto o açúcar  como o café são vendidos com a marca Periquito, e, devido à excelência desses produtos, a sua procura nos mercados paulistas é cada vez maior. O maquinismo desta fábrica é movido por um motor a vapor de 450 cavalos e também por 6 dínamos elétricos de uma força total de 2540 cavalos. Emprega o estabelecimento cerca de 170 pessoas.   

Para destilação do álcool, tem a Companhia uma outra fábrica perto da estação de estrada de ferro Varzea e da São Paulo Railway, a uma distância de cerca de 1¼ hora de São Paulo, ocupando uma parte de um terreno de 57.200 metros quadrados de propriedade da Companhia. Esta fábrica destila 50.000 litros de álcool mensalmente, extraído do milho, sendo esta a única fábrica no Brasil que destila álcool de milho. Os maquinismos, que são dos tipos mais modernos, provêm da França e Bélgica e são tocados por motores com 250 cavalos, sendo a fábrica e suas dependências iluminadas à luz elétrica produzida no estabelecimento. Do álcool destilado, cerca de metade é usado na fabricação das águas Cusenier e o restante vendido no lugar. Cerca de 70 homens trabalham nesta seção.   

A Companhia de Indústria e Comércio, Casa Tolle, é na realidade a amalgamação de três companhias: a Companhia Indústria e Comércio, a Companhia Refinadora Paulista e a Société Anonyme des Distilleries Brésiliennes. A firma primitiva, Casa Tolle, foi fundada em 1885 e organizada em companhia nos princípios de 1911 com o capital de Rs. 1.500:000$000, em ações de Rs. 100$000 cada uma.   

Os diretores são os srs. Edward Wysard, presidente; W. Smith Wilson, vice-presidente; J. Copinger-Walsh, diretor-gerente, e B. D. G. Ball, secretário. O sr. Copinger Walsh, que está na América do Sul há 20 anos, ocupa-se dos interesses esde a amalgamação. O escritório da Companhia fica à Rua da Quitanda, 12.   

Fotos: Casa Tolle, o inglês; Casa Tolle, licores  (Acervo pesooal Cariocadorio. Proibida a reprodução sem autorização prévia) Casa Tolle e suas fábricas (do livro: Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd’s Greater Britain Publishing Company, Ltd.)
Link para o site Novo Milênio:
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0300g39eg10.htm