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Desordem carioca

21 de novembro de 2010
 

Rua Senador Vergueiro - distribuição de jornais

Não bastassem os tradicionais vendedores de balas, chocolates, biscoito Globo, água mineral e os infames lavadores de pára-brisa, agora temos os vendedores de jornais.  Digo vendedores porque trata-se de um negócio, embora os jornais sejam entregues gratuitamente.  Dois jornais concorrem por este mercado.

A economia por décadas decadente, a falta de empregos e a eterna tolerância das autoridades do estado criaram uma economia de esquina e engarramento difícil de reverter em pouco tempo. É igualmente conhecido o perigo para a segurança que são estes lavadores de pára-brisa cuja atividade não se consegue coibir.

O que se vê agora é uma atividade formal sendo permitida nas ruas do Rio. Os distribuidores de jornais, uniformizados e patrocinados, ocupam as esquinas retardando o tráfego e causando perigo inclusive para eles próprios.  Se a moda pega, em breve teremos todos os tipos de promoções nos sinais trânsito aumentando a insegurança e tornando o ir e vir ainda mais caótico.

Não se pode admitir a institucionalização da desordem. Este mal pode ser cortado pela raiz. É  imperativo acabar com a distribuição se jornais no trânsito carioca.

Barão do Flamengo x Praia do Flamengo

Fotos by Cariocadorio (Nov. 2010)

O valor do dinheiro

15 de novembro de 2010

O estacionamento estava lotado.
Desistiram do costumeiro croquete da Casa do Alemão, símbolo do começo do fim de semana.  Marcha a ré no Peugeot, Marcello sentiu o carro encostar de leve em alguma coisa. Não deu bola. Voltou pra estrada para cem metros depois notar que o pneu traseiro estava vazio.  Parou no posto de gasolina sem viv’alma. Um daqueles de bandeira de um posto só. O frentista, com má vontade, indicou que borracheiro só no outro posto, uns  trezentos metros adiante.    

Marcello sentiu aquele arrepio de insegurança.  No retrovisor percebeu os gêmeos inquietos.  O olhar de Estella mostrava que ela compartia o seu receio.     
Baixada fluminense, aquele carrão com uma família inteira dando mole, crianças… Eram alvo fácil. 
Seguiu arrastando-se pela pista lateral e logo chegou ao posto seguinte.  De fato, no canto do posto caindo aos pedaços, lá estava o velho borracheiro dormindo sossegadamente na porta da borracharia.

Buzinou, mas o que estava dormindo assim continuou.  Vindo não se sabe de onde, surgiu um rapaz forte com jeito de quem vai atender.  E assim foi.  Marcello pegou o manual para entender como trocar o pneu do complicado carro francês. O borracheiro foi fazendo o trabalho.  Marcelo só percebia que estava tudo certo mas quando o cara pediu o adaptador para tirar o último parafuso Marcello gelou.  Nunca tinha visto a tal peça.  Felizmente a encontrou e o rapaz concluiu o trabalho. 

Protegeu o porta-mala com um jornal e posicionou a roda trocada. Aliviado  e pronto pra seguir a viagem, Marcello perguntou quanto era.  

“Quatro reais”, respondeu o borracheiro. 

O rapaz não tinha idéia do valor do serviço que havia prestado. O quanto valia sair dali em segurança e seguir viagem.  O quanto Marcello precisava aliviar a mente da rotina pesada, do rigor do trabalho nestes últimos tempos.  No Rio de Janeiro, a vinte quilômetros dali, cobrariam muito mais só pra não lhe arranhar o carro no estacionamento.  

Na carteira Marcello encontrou três notas de dois reais e as deu ao rapaz.  Se tivesse uma de dez a teria dado. Por pouco não lhe passou a de vinte reais.  O borracheiro agradeceu e indicou onde ele poderia lavar a mão com detergente.  O local estava surpreendentemente limpo, para uma borracharia é claro.  Antes de partir, Marcello chamou de volta o rapaz, que trocava o pneu de velho Corsa, e explicou:

“Quando aparecer um carro desses, pode cobrar uns cinco ou seis que ninguém vai reclamar.”


Marcello manobrou o Peugeot 607 e saiu. 
Estella ainda comentou que o velho borracheiro continuava dormindo do mesmo jeito que estava. 

Fotos tiradas da internet.