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A perseverança da memória

14 de maio de 2011

Encontrei D. Cecília muito agitada naquela tarde.  Insistia em andar pela casa embora nem mesmo forças para se levantar sozinha tivesse. Mal se lhe ouviam as nervosas instruções, a voz prejudicada pelo Parkinson. Apontava a porta da rua, queria sair.

De repente balbuciou palavras em francês. Há muito tempo não a ouvíamos falando francês. O que seria aquilo agora?  A enfermeira procurou acalmá-la. Cecília insistia, repetindo palavras sem sentido.
 

Aproximei-me bastante e finalmente entendi.  
“Suzanne…premier étage…”

Queria apenas visitar sua amiga de tanto tempo, Suzanne Bergé.  Ela morava no mesmo prédio, no primeiro andar.  Expliquei que Mme. Bergé estava em Londres mas que  telefonaria assim que chegasse. Acalmou-se sob o efeito da mentira sincera ou talvez do Rivotril que o Dr. Gilberto receita para estas situações. 

Sentou-se tranquila. Nas mãos os presentes do dia das mães.  Estava mais interessada em fazer e desfazer as embalagens do que nas colônias, sabonetes e lencinhos.  

O pensamento ia longe agora. Certamente nas tardes de cinema, ateliês e museus com as amigas.  Ou nas longas noites regadas a cigarros e vinhos no Le Jardin. Cecília e o marido participavam de intermináveis discussões sobre o ser ou não ser, sobre artes e política, seu assunto predileto. 

“Le communisme est le future de l’humanité, donc il vaut mieux que vous vous habituez”, provocava Cecília. Décadas depois ela não se absteve de admitir sua decepção quando aquela experiência que tanto admirava começou a fracassar.

A vida meio boêmia, meio deslumbrada do casal acabou quando Cecília passou a ter direito a ganhar presentes no segundo domingo de maio. 

Agora ela já não brincava com os presentes.  Dormia, cabeça de lado no espaldar da poltrona, um quase imperceptível sorriso nos lábios.  Poderia apostar que em sonhos ainda estava na sua Paris do início dos anos 60, a época mais divertida da sua vida.

Nem mesmo as grandes amizades são imunes à distância e ao tempo. Suzanne Bergé foi a amiga inseparável, ainda que achasse uma grande besteira aquele negócio de comunismo.

Quando Suzanne se foi, pouco antes da virada do século, há muito as amigas já não se viam.

Imagens, na ordem:
“The helmetmaker’s once beautiful wife” de Auguste Rodin, foto by cariocadorio em 1985. (Veja mais sobre esta escultura aqui).
“The persistence of memory”, Salvador Dali, foto obtida na internet.
“Jeunes Filles au Piano”, Piere-Auguste Renoir, foto by Cariocadorio em 1985.

Miopia

11 de outubro de 2009

Aquela havia sido uma longa tarde de verão europeu.

Porta di Rodin

Desistimos de ir até a Bélgica preferindo dedicar mais um pouco de tempo à França.  Em Paris os programas de todo turista de primeira viagem.   Louvre, D’Orsais, uma fantástica visita ao Rodin, que infelizmente não estivera no atelier naquele dia, torre Eifel e vários etc entre mais e menos votados.

Mas eu dizia que a tarde havia sido longa.  Saímos cedinho, livramo-nos daquelas intermináreis avenidas que circundeiam Paris e descemos por estradas secundárias pelo vale do Loire.  Interessantes paisagens do interior, cidades pequenas, pessoal simples conversando em cadeiras na porta das casas contrastando com os famosos castelos e igrejas.

Digitalizar0003 E assim, de uma atração à outra, vendo o céu tomar as tonalidades típicas do crepúsculo, seguíamos pelas estradas secundárias da França até chegar às auto-pistas.   Nossa próxima parada, um hotelzinho simples para passar a noite e, pela manhã, seguir para Barcelona.  O mesmo plano das torcidas do Ajax, do PSG, da seleção da Alemanha…todos a caminho das praias da Espanha e de Portugal.  Ficou dífícil encontrar vaga em hotel.  Em algum lugar sugeriram que procurássemos em Sete, uma cidadezinha próxima à auto pista. Aí já estava escuro de vez, o que pelos padrões europeus desta época do ano significa mais de dez da noite. No caminho de Sete os faróis contrários pareciam enormes bolas desfocadas.   Concluí que estava realmente cansado.

Estávamos mesmo.  O hotelzinho de Sete era uma coisa muito triste mas foi o que encontramos por um preço exorbitante pago adiantado.  Subimos ao quarto pela escada velhíssima acompanhando o gerente do hotel.  Ao sair ele apagou as luzes do corredor e das escadas.  Bastou trocarmos um olhar para concluir que era melhor na estrada do que naquela espelunca.  Descemos antes que o  tal gerente fosse dormir.  Pra minha surpresa recuperamos o que havíamos pago e pegamos de volta a tal estrada.  Os faróis contrários estavam maiores ainda.

Dormimos algumas horas no carro, em um posto de gasolina na estrada principal.  Nós e parte das citadas torcidas. Tinha trailler, barraca, tenda e outros arranjos pra tudo quanto era lado.  Valia de tudo pra descansar antes de seguir para as praias ensolaradas da Espanha.  Na manhã seguinte, energia apenas  parcialmente recuperada, seguimos para a terra de Gaudi.  Naquela tarde, muito bem instalados em um hotel 4 estrelas, tive uma dor de cabeça memorável.

DiGaudí

Batlló di Gaudí

Cerca de um mês depois, entretanto,  compreendi que os faróis enormes não eram exatamente do cansaço da longa e alegre jornada em terras francesas.  E mandei fazer os primeiros óculos da minha recém iniciada miopia.

Isso tudo aconteceu lá pelos idos de muitos anos atrás.  Hoje ostento quase inseparáveis multi-focais.

miopia

Fim de texto - Miopia