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Tela Redonda

14 de julho de 2010

Relíquias dos anos 50

Estamos em agosto de 1960.  Enquanto minha madrinha faz pose para a foto, o tio Maurício está muito mais preocupado com o jogo do Flamengo.  O radinho de pilha, coisa moderna na época, vai colado ao ouvido.

Na época esta foto foi apenas mais uma do dia do meu aniversário. Hoje ela  nos traz algumas relíquias.  Começando pelo tradicional telefone preto, passando pelo radinho da marca Spika e chegando às estrelas da companhia. 

Uma típica rádio-vitrola em que vagamente me recordo de ter ouvido tocar uns velhos discos de 78 rpm e a formidável televisão Zenith, tela redonda, que não me lembro de ter visto outra igual. Nesta TV desfilaram artistas renomados como o Pica-pau, a Tartaruga Touché, Lippy o leão e a hiena Hard Rá-Rá (Oh céus, oh vida, oh azar!), o Super Homem e o meu favorito National Kid.  Tinha ainda o programa de tia Fernanda que apresentava os flautistas “Bicudo e Bicudinho”. Um deles era o Altamiro Carrilho.    

Esta TV durou bastante. Os tempos eram difíceis e não dava para comprar uma nova.  No final era um sacrifício assistir os programas favoritos.  Primeiro tinha que esperar até que esquentasse.  Enquanto isso dava pra ouvir o Altemar Dutra cantando “o Trovador” no Rio Hit Parade da TV Rio. Ver era mais difícil.  Depois, a toda hora os controles de vertical e horizontal tinham que ser acionados para parar a imagem.  O problema era em um tal de flyback, seja lá o que isso fosse.  

Finalmente a heróica Zenith foi aposentada e em seu lugar chegou uma Telefunken. Totalmente sem graça mas funcionava muito bem.  Junto com a Copa de 74 chegou uma Philco a cores, 24 polegadas se não me engano.   Tempo de milagre brasileiro …

Pesquisando na internet encontrei o modelo da foto, praticamente igual, no site “Television History” que lista diversas TVs em ordem cronológica:
http://www.tvhistory.tv/1950-59-ZENITH.htm

Foto: Relíquias dos anos 50 (agosto de 1960); acervo Cariocadorio, proibida a reprodução sem autorização prévia.

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Cala a Boca, Galvão

16 de junho de 2010

Não é de hoje a crescente aversão àquele que já foi o melhor narrador esportivo da televisão brasileira.  Há alguns anos os cartazes do tipo “mostra nóis, Galvão” começaram a dividir espaço nas arquibancadas com os  “Fora Galvão”.  No início, os desavisados diretores de imagem da Globo chegaram a mostrá-los ao vivo.  No pan de 2007, uma sonora vaia tomou conta da arena de esportes quando o narrador levantou-se para cumprimentar o público achando que seria ovacionado.  

“O Globo” desta terça-feira publicou em primeira página que “A expressão Cala a boca, Galvão virou febre no twitter”.  Comentários a respeito estão em duas importantes colunas do jornal.  No site da Globo tem uma matéria (aqui)  onde o locutor diz rir da corrente “cala a boca, Galvão”.   Não pode ser por acaso esta superexposição.  A poderesa empresa acusou o golpe e usa a velha tática de unir-se ao inimigo quando não se pode vencê-lo.  Pretende com isso transformar em brincadeira ou factóide, um movimento que espelha honestamente o sentimento de uma grande parcela da população.  Na sua grande maioria, público da TV Globo.    

Não creio que a tática possa dar certo porque isso não é um movimento isolado.  A aversão ao Galvão Bueno não é fabricada por pessoas despeitadas que têm inveja do profissional.  Ela está nas ruas,  nos ambientes de trabalho e é impressionante em blogs especializados em fórmula 1.  Não é para menos.  Quem acompanha este esporte percebe que o narrador da Globo mente em nome de um ufanismo desnecessário e desagradável.  Desinforma, engana, diz quase o oposto do que se está vendo na tela.  Isso é inaceitável em um jornalista.

Mas o que teria acontecido para chegar a este ponto após tantos anos de televisão e sucesso? 

Preciso nas transmissões esportivas, o carismático Galvão Bueno se destacou na TV Bandeirantes narrando partidas de futebol e a fórmula 1 no início dos anos 80.  Sua competência o levou à rede Globo onde deu sequencia à sua vitoriosa carreira, cada vez com mais poderes dentro da mais poderosa empresa de midia do Brasil.  Infelizmente em algum momento este merecido sucesso lhe subiu à cabeça e o levou a se considerar acima do bem e do mal.  Nada menos do que o show em si mesmo.  Cada vez mais consciente da sua capacidade e popularidade, Galvão Bueno passou a tratar os colegas e o próprio esporte como coadjuvantes em seu próprio espetáculo.  Não é a toa que prefere se cercar de comentários insossos de Reginaldo Leme e Falcão, que não têm a força da comunicação, e a fazer de escada o seu comentarista de arbitragem. 

Sua arrogância e auto-suficiência são sentidas pelo telespectador.  Com as TVs por assinatura  cada vez mais disseminadas, inclusive pelas gatonets espalhadas pelo país (ontem no Rio estouraram uma com mais de 30.000 clientes), o telespectador tem mais opções.  As boas narrações da SporTV e da ESPN, menos afetadas e mais atentas ao esporte em si, ajudam a fazer comparações.  Isso aumenta a percepção do quão desagradável é a participação do narrador oficial da TV Globo atualmente. 

Todos perdem com esta situação, inclusive os telespectadores. Um pouco de humildade é fundamental.  Ninguém é tão bom que não possa ser derrotado ou substituído.  Afinal, o inferno está cheio de insubstituíveis. 

Foto:  Gavião, by Ana Cotta (Flickr, Creative Commons, Julho 2008)