Archive for abril \23\UTC 2010

A porta do elevador

23 de abril de 2010

Há mais de quinze anos o Dr. Ubiratan Latorre  repete o mesmo ritual: acompanhar os filhos até a saída e, com um sorriso no rosto, acenar até que desapareçam na janelinha da porta do elevador.

Neste dia ele se levantou cautelosamente da sua poltrona favorita assim que sua filha mais nova despediu-se beijando-lhe a testa. Sob o olhar atento da cuidadora  dirigiu-se lentamente para a saída.
De repente a rotina da sua vida passou-lhe pela mente.

Lembrou-se da sua eterna alegria de viver, do cantarolar matinal antes de ir para o trabalho com a barba bem feita. Do cuidado com os números e com a pessoas, das manhãs de golfe com os amigos de tanto tempo e das tardes de hipódromo em um passado distante. De como cuidou da casa e da esposa até que ela se fosse para sempre. Lembrou-se dos filhos, de todos e cada um de seus netos e do pequeno Daniel que acabara de nascer, seu primeiro bisneto. Do seu fisioterapeuta, da cuidadora, tão paciente e gentil, e do sem número de pílulas e comprimidos diários.

Lembrou-se até da incerteza do seu esquecer. Da leitura diária dos jornais, das notícias lidas e comentadas tantas vezes seguidas apenas para serem novidade no instante seguinte.

Segurou a porta do elevador aberta por mais um momento. Com o mesmo sorriso de sempre mas um brilho nos olhos e uma lucidez incomum nos últimos anos, fitou sua filha calmamente:  

“Por que esse filme não chega logo ao fim?”

 

Foto: A porta do Elevador (by Cariocadorio)

Copa de 62, Chile

22 de abril de 2010

A copa de 1962 nos lavou de vez a alma.  Após a vitória na Suécia em 58, o Brasil foi campeão mundial de basquete no mesmo Chile que nos veria levar a Taça Jules Rimet pela segunda vez consecutiva. 

Estávamos nos livrando por completo do complexo de cachorro vira-latas.    

Brasília era o símbolo de um novo país, capaz de criar cidades no meio do nada e uma indústria em crescente desenvolvimento.  País da bossa-nova, o Brasil já podia fabricar os seus próprios carros e, pasmem, mamadeiras para alimentar seus futuros jogadores de futebol, artistas e políticos. Se bem que estes últimos prefiram mamar em outras tetas.    

A prova deste momento está aí, nesta tabela patrocinada pelas mamadeiras EVEN, feitas em vidro siliconisado (seja lá o que isso for) e oferecida pela Farmácia Brasil, situada na Rua Dona Romana no Lins de Vasconcelos . Se isso tudo teria a devida continuidade depois é outra história…   

Antes do início do torneio, minha mãe preencheu a lápis o lugar de “campeão do mundo” : Brasil … e deu certo.  Na luta européia os países do Leste levaram a melhor:  4 seleções da cortina de ferro chegaram às oitavas-de-final e duas passaram às finais onde acabaram se dando mal contra os sul-americanos.  O Chile fez bonito em casa, chegando em terceiro.  

Tabela da Copa de 62 - Clique para ampliar

Garrincha no Chile

Sem Pelé, que se machucou no primeiro ou segundo jogo, restou ao Brasil contar com a maestria de Garrincha para desequilibrar a nosso favor. Garrincha foi o dono da Copa de 62. Driblou como nunca e fez até gol de cabeça, coisa que os russos haviam jurado que era coisa que ele não sabia fazer. Nilton Santos foi fundamental ao evitar um penalti conta a Espanha e Zito comandou o meio de campo para que Vavá fosse nosso artilheiro.

A vida pode seguir  tranquila até 1966, quando inexplicavelmente não houve a copa marcada para a a Inglaterra.  Só  nos restou aguardar até a edição seguinte, no México.

A história das copas por Cariocadorio:
https://cariocadorio.wordpress.com/category/copas-do-mundo/

Fotos: tabela da copa, arquivo Cariocadorio; fotos obtidas da internet.

Nesta Data Querida

21 de abril de 2010

 

Hoje é dia de Tiradentes.  Primeiro herói da independência nacional, pelo menos de acordo com os livros de história do Brasil. Seja como for, Tiradentes é uma figura importante da história deste país.  Graças a êle hoje é feriado e está fazendo um belíssimo dia no Rio de Janeiro.  Hoje também é o dia em que Brasília comemora os seus cinquenta anos, tanto quanto faria hoje o nosso Estado da Guanabara.  Tudo isso tem a sua importância mas nada a ver com o título deste artigo. 

Nesta data querida celebramos um acontecimento muito especial que nos é lembrado a cada dia, todos os dias. 

Foto: 1° aniversário (arquivo pessoal Cariocadorio)

Copa de 58, Suécia

19 de abril de 2010

É claro que, aos 3 anos de idade, eu não estava nem aí pra copa do mundo. Mas o resto da família sabia muito bem da importância do evento. Para os meus pais, que assistiram a final de 50 no Maracanã,  estava mais do que na hora de vencer uma Copa do Mundo. Só fui saber da copa da Suécia muitos anos mais tarde, na época da copa seguinte, quando meu interesse pelo esporte já começava a se aguçar.  

Fiquei vidrado ao ver esta tabela da Copa da Suécia guardada pelo meu irmão, louco por futebol já naquela época.  A tabela foi distribuída pela Contigráfica, uma tradicional papelaria de Laranjeiras.  Jogo após jogo, minha mãe foi preenchedo o  resultado dos jogos e anotando as seleções das quartas-de-final, da semi e da final.  Hoje chamam isto de “play-offs”, coisa mais sem graça que nada tem a ver com o futebol.    

Tabela da Copa da Suécia. Clique para ampliar.

A copa da Suécia é a pimeira da qual se tem grandes lembranças. Os dribles de Garrincha, o chapéu do Pelé dentro da área, o choro do rei ao final e a imagem de Beline levantando a taça são apenas algumas destas imagens inesquecíveis.  

O choro do rei

O caminho brasileiro até o título não foi tão fácil como fazem parecer os 5 x 2 contra França e Suécia.  O Brasil venceu com dificuldade a Inglaterra e teve que lutar muito para superar  a seleção dos empates, País de Gales, com um sofrido 1 x 0. Nunca mais estes caras apareceram.   

A guerra fria ia de vento em popa.  Duas nações da cortina de ferro, Rússia e Iugoslávia, chegaram até às oitavas-de-final mas não foram bem.   Desde pequenos nos acostumamos a ver a Iugoslávia, país que já não existe,  como uma referência em esportes.  Nas copas mais recentes pouco apareceram os países do leste europeu. As coisas mudaram muito nestes cinquenta e poucos anos.    Bem, na verdade nem tudo.

A Contigráfica continua no mesmo lugar, fornecendo material escolar a gerações de estudantes de Laranjeiras, particularmente os do Liceu Franco-Brasileiro, como o meu irmão naquela  época e eu, anos mais tarde.

A história das copas por Cariocadorio:
https://cariocadorio.wordpress.com/category/copas-do-mundo/

Fotos: tabela da copa, arquivo Cariocadorio; fotos obtidas da internet.

História das Copas do Mundo

17 de abril de 2010

A cada quatro anos, nesta época, os canais de esporte se fartam de apresentar a história das copas do mundo. Filmes oficiais, grandes clássicos, reportagens com jogadores e por aí vai.  Tudo bem ver pela enésima vez o gol que o Pelé não  fez contra o Uruguai em 70, os dribles do Garrincha em 58 e o pênalti que o Baggio bateu pra fora em 94.  Mas o que dizer da fatídica final na França, dos gols do Paolo Rossi em 82 e do Argentina x Peru de 78?

Aqui e acolá cada um tem suas preferências e sua própria história das copas do mundo.  E você? Onde é que você estava na final da Copa de 70?  Essa é fácil, mas na final de 66 fica mais difícil lembrar.  Pegando uma carona nessa história, o Cariocadorio vai contar a sua versão. Comecemos de imediato pela Copa do Brasil. Para mim é aí que começa a história das copas apesar de que em 50 eu não fosse nem um lampejo de luxúria nos olhos dos meus pais. Mas não dá pra deixar de falar da grande catástrofe nacional: o Maracanazo.  Parece que foi ontem.

Maracanã, Jun/50

O palco foi este que aparece na foto, quase pronto para maltratar os brasileiros, vivos ou mortos, que lá estiveram pensando em celebrar nossa grande vitória.  A formidável campanha que nos iludiu com esta certeza teria sido a causa da derrota na final.  Meu pai conta como foi a goleada sobre a poderosa Espanha, com o povo cantando “eu fui às touradas de Madrid”.  A catástrofe se traduz no que sentiu o goleiro  Barbosa, provavelmente o homem que mais sofreu esta derrota. Todo criminoso cumpre a sua pena e depois fica livre mas ele não, sua pena foi perpétua e ele nunca se livrou dela.

Copa de 54, Suiça

Em 1954, na Suíça, o Brasil ainda sofria as conseqüências da derrota anterior e caiu diante do (quase) invencível esquadrão húngaro.  Este, o grande favorito, foi derrotado na final pelos alemães, que conquistaram o seu primeiro titulo na base da tecnologia, perseverança e do cansaço dos adversários.

Faltavam então apenas quatro anos para o Brasil se livrar do complexo de cachorro vira-lata.

Por que será que antigamente levava tanto tempo entre copas e hoje mal acaba uma e já começa a outra?

A história das copas por Cariocadorio:
https://cariocadorio.wordpress.com/category/copas-do-mundo/

Fotos: Maracanã, Jun/50, (by Kléber, acervo pessoal Cariocadorio; proibida reprodução sem autorização prévia); Bandeira da Suiça (internet, open 4 group, downloads)

Trampolim do Diabo

12 de abril de 2010

Acidente na Visconde de Albuquerque

Dos primeiros passos do automobilismo no Brasil a mais famosa pista de corridas é o Circuito da Gávea no Rio de Janeiro.  As dezesseis provas neste incrível circuito, entre 1933 e 1954, levaram o Brasil às páginas da imprensa internacional. O circuito estendia-se por 11,6 km, passando pela Viscionde de Albuquerque, Rocinha e Av. Niemayer.  Além do desafio de pisos variados, curvas de todos os tipos e sua beleza natural, este circuito tinha o perigo como uma de suas principais características. Daí o nome de Trampolim do Diabo.  

Nesta pista correram os primeiros ídolos do automobilismo brasileiro como Manuel de Tefé, Irineu Corrêa e Chico Landi.  Participaram vários estrangeiros famosos como o italiano Carlo Pintacuda, o alemão Hans Stuck e os argentinos Froilán Conzales e o grande Juan Manuel Fangio.  A francesa Helle-Nice, misto de piloto e dançarina, também ficou famosa no Brasil por correr no circutio.  

Uma ótima descrição do que foi o Circuito da Gávea pode ser vista no site Óbvio (clique aqui) de onde retiro este pequeno trecho sobre o piloto brasileiro Irineu Corrêa.
“O fato mais marcante foi na corrida de 1935 quando Irineu Corrêa, que vencera no ano anterior, morreu ainda na primeira volta após se chocar com uma árvore e cair no canal do Leblon. Um dos pilotos mais talentosos que este País já teve, Irineu se destacava também em provas na Argentina e chegou a vencer uma corrida nos Estados Unidos, provavelmente a primeira vitória de um brasileiro no Exterior. Sua morte chocou o público da então Capital Federal.”   

Detalhe

Mas o importante aqui é a foto acima. Eu era garoto quando a vi pela primeira vez.  Ela pertencia ao meu avô Abel. Entendo que tenha sido tirada por ele mesmo e que retrata o acidente que tirou a vida de Irineu Corrêa.  Infelizmente não posso ter certeza disso mas o certo é que o acidente ocorreu na Visconde de Albuquerque e que seu carro levava o numeral 32.   Clique na foto para ampliá-la e ver o número. Pesquisei na internet sem encontrar um intantâneo como este.  Portanto, esta foto pode ser um importante documento da história do automobilismo brasileiro.
A foto neste site mostra o carro de Irineu antes do acidente, com o numeral 32.
http://www.forix.com/8w/gavea/rio35-correa1.jpg  

Fica aqui o convite para que especialistas no assunto comentem e nos tirem as dúvidas.  

Foto: Acidente na Visconde de Albuquerque; (by Abel Lourenço dos Santos; 1935; acervo pessoal Cariocadorio, proibida a reprodução sem autorização prévia.

O Piso, o ralo e o fundo do poço

10 de abril de 2010
O pão sempre cai com o lado da manteiga virado para baixo.  Pode-se argumentar que a manteiga ou o formato do pão tem alguma influência  mas não precisa ser doutor em estatística: a probabilidade de um lado ou outro bater no chão é de 50%.  Portanto, a manteiga sempre no chão é mérito do azar.  Há inúmeros exemplos destas coisas que parecem dar sempre errado. Mesmo que a probabilidade de dar certo seja de 50%, a de dar errado é de 90%.  Tá bom, a matemática não fecha mas é assim que  acontece.
É assim que a água sempre escoa para o lado contrário de onde está o ralo.  Às vezes  até vai em sua direção mas flui caprichosamente em torno dele e fica empoçada em algum lugar.  Azar? Não, neste caso o mérito é da incompetência de quem fez o piso.  Que coisa irritante o ralo ficar mais alto que o resto do piso, por mais óbvio que parece que tem que ser o contrário.

Nas calçadas não há ralos mas  uma enorme sarjeta correndo ao longo de toda a extensão da rua.  Parece tão fácil fazer a calçada lisa e com o caimento para a sarjeta de onde correria até a galeria pluvial mais próxima. Daí seguiria seu caminho natural sem atrapalhar ninguém.  Quem já andou pelas ruas do Rio de Janeiro sabe muito bem o que acontece quando chove um pouco.  Tem mais poças do que calçadas e as galerias de águas pluviais não escoam a água porque estão entupidas.  Não há calçada reta, nivelada ou sem buracos no Rio de Janeiro. À incompetência somam-se o descaso e o mal uso dos recursos públicos (não seria elegante dizer roubalheira). 

Todo mundo sabe o que está acontecendo no Rio de Janeiro.  Chuva não é nenhum terremoto ou furacão. Pode ser muita, mas ainda assim é chuva. Um problema maior aqui e ali ainda se entende mas  essa catástrofe é inadmissível.  Afinal chove muito no estado do Rio em algum momento quase todos os anos.  A desculpa das autoridades é dizer que a chuva foi a maior nos últimos cem anos e que nenhum lugar está preparado para isso.  
É como dizer que a parada de 7 de setembro pega as forças armadas de surpresa todos os anos.

Fotos: Bread and Butter, by Ebby (24/6/2005, Flickr, Crative Commons);  Megane na Lama, by Cariocadorio (Fevereiro de 2008).

Tira a mão daí, menina

6 de abril de 2010

O vovô Abel sempre foi um homem entusiasmado pela tecnologia, embora sua grande habilidade fosse com os números.  Afinal, era guarda-livros (veja aqui) de formação. Reza a lenda que tinha mania de mexer em tudo dentro de casa, desde o quadro de fusíveis até os mais complexos aparelhos eletro domésticos.

Myrthes e o rádio, 1931

Uma das suas mais famosas criações foi este rádio que, segundo consta, ele montou com as próprias mãos. Depois ficava  horas sintonizando alguma estação distante, nas ondas-curtas. Daí também as histórias de que falava vários idiomas, coisa que ele nunca confirmou.  Até ficava zangado quando a vovó, orgulhosa, salientva sua erudição.  Conhecia francês e inglês, curioso e estudioso que sempre fora.  Mas o mais importante era sintonizar alguma estação estrangeira,  pouco importando entender o que estavam dizendo. 

Este rádio foi motivo de grande satisfação para ele. Não admitia que qualquer dos sete filhos chegasse  nem perto.  Ai de quem! .  Vovó certantamente nem pensava em tocar nele, tamanho o respeito pelo marido.  Os flhos o respeitavam e temiam.

Muito escutei sobre o pai severo e exigente, como devia ser em seu tempo. Mas creio que pintavam o bicho mais perigoso do que era na verdade.  Afinal, quem se não ele teria tirado esta foto da minha mãe, aos seis ou sete anos de idade, ameaçando perigosamente mexer onde não devia.

Foto: Myrthes e o Rádio (1931); acervo pessoal Cariocadorio.  proibida a reprodução sem autorização prévia.

Se beber não dirija

3 de abril de 2010

As estatísticas de mortes nas estradas brasileiras são alarmantes.  Muitas vezes os acidentes que levam tantas vidas precocemente são causados por motoristas que dirigem alcoolizados, sob o efeito de drogas ou com sono.
Recebi o texto  e o video abaixo por e-mail.  É tão importante que vale a pena fazer tudo para que o maior número possível de pessoas o veja.  Passem adiante, reproduzam em seus espaços, encaminhem a quem possa fazer algo assim no Brasil.  As imagens são muito fortes mas merecem ser vistas. 

 

Uma das maiores empresas de marketing do mundo, resolveu passar uma mensagem para todos, através de um vídeo criado pela TAC (Transport Accident Commission) e que teve um efeito drástico na Inglaterra. Depois desta mensagem, 40% da população da Inglaterra, deixaram de usar drogas e de se alcoolizar pelo menos nas datas comemorativas. Espero que todos assistam, mesmo que não se alcoolizem ou usem algum tipo de drogas, e que reflitam e passem para os seus contatos. 

Ultra não-tão-leve

2 de abril de 2010

Reconheço a beleza dos seus textos e sua importância como jornalista. Mas confesso não me ter sido simpático o grande Armando Nogueira. O que sinto é fruto de como ficou marcada na minha memória sua participação em dois episódios. 

Voar: a maior ambição do homem

Primeiro o caso Proconsult. Armando comandava o programa da TV Globo que noticiava o andamento das apurações das eleições de 82. Outras emissoras e jornais davam resultados diferentes. No final, aquilo que o jornalista dizia era resultado de uma fraude vergonhosa armada para prejudicar o candidato Leonel Brizola. Estava Armando envolvido? Não sei, mas ele ficou sendo, para mim, a imagem daquela fraude.   
Segundo (ou primeiro) foi sua postura no comando dos programas da TV Globo durante a copa de 82. Sua forma de conduzir debates e entrevistas era controladora e autoritária, o que me parecia incompatível com sua imagem de cronista maior e poeta do esporte.
Jamais consegui dissociá-lo destes eventos.
Qual seria o verdadeiro Armando Nogueira?  Seria o poeta um ditador?  O jornalista chefe um fantoche da ditadura?

Sua morte desencadeou declarações de seus colegas que unanimemente o reconhecem como mestre e dignificador do jornalismo esportivo. Do “Bem Amigos” já se esperava a tradicional fórmula de glorificar pessoas e forjar ídolos.  Mas no “Linha de Passe” da ESPN, bem mais profissional, vimos elogios de jornalistas conceituados como Juca Kfuri, José Trajano, Fernando Calazans, Paulo Vinícius Coelho e Marcio Guedes.  Este último o único a citar, de passagem, o caso Proconsult.

Diante disso tudo, comecei a achar que havia cometido grave injustiça. Somente ontem li a crônica de Eliakim Araújo que me fez lembrar o que mais ajudara a construir a imagem que tenho do jornalista.

Felizmente, não há consequencia alguma do que penso ou deixo de pensar a respeito. Preferiria realmente me convencer de ter cometido um erro de avaliação e, então, poder reler e desfrutar, sem ranços, dos textos de um grande jornalista.

 Crônica de Eliakim Araújo publicado no Direto da Redação (http://www.diretodaredacao.com/)

 ARMANDO NOGUEIRA, UM SEDUTOR IRRESISTÍVEL
por   Eliakim Araújo   –  30/03/09  

Como jornalista, Armando Nogueira foi um excelente poeta e um prosista de texto refinado. Entrou no jornalismo da TV Globo em 1966, quando o golpe militar estava ainda fresquinho, e lá ficou até 1990, quando o novo presidente, Fernando Collor, convenceu Roberto Marinho a promover Alberico Souza Cruz ao posto máximo do jornalismo global, não que tivesse qualquer objeção a Armando, simplesmente porque precisava premiar o amigo Alberico que teve participação decisiva na edição do debate presidencial e ainda palpitou nos programas especiais que transformaram Collor no indômito “caçador de marajás”.

Armando não foi demitido, pior que isso, sofreu uma “capitis diminutio”. Foi “promovido” a assessor especial da presidência, o que a plebe chama carinhosamente de “aspone”. Dedicou-se então ao jornalismo esportivo, onde, aí sim, foi um verdadeiro mestre da palavra escrita e falada. Fui revê-lo anos mais tarde apresentando um programa de esportes num dos inúmeros canais a cabo da Globo.

De Armando, pessoalmente, guardo duas passagens. Eu estava há menos de um ano à frente do Jornal da Globo quando cruzamos no corredor onde ficava a redação do Globo Repórter. Ele me parou e disse: “olha, eu quero te cumprimentar porque desde Heron Domingues não aparecia aqui um apresentador como a mesma naturalidade dele”. Heron era o ícone de toda uma geração de telejornalistas e ser comparado a ele era um elogio e tanto que elevou meu ego às alturas. Hoje, honestamente, não sei se foi sincero ou apenas uma frase de efeito com a qual seduzia todos que estavam entrando no império global.

Doutra feita, estava eu no Eng, a sala da técnica que comanda a transmissão dos telejornais, quando alguém me chamou ao telefone. Era o Armando: “Tenho uma boa notícia para lhe dar, a partir de agora você vai passar a ganhar cinco mil cruzeiros por mês”. Entre surpreso e curioso, rebati de primeira: “e o que é que vocês vão querer em troca?” Armando ficou visivelmente decepcionado com minha reação, esperava talvez um emocionado agradecimento de quem ganhava dois mil reais. Ora, pensei naquele momento, onde já se viu um patrão mais que dobrar o salário do empregado sem um motivo especial? Depois se esclareceu que eu, e todos os demais apresentadores, perdiam ali o status de funcionários da Globo e passavam a Pessoa Jurídica com contrato de firma. Na época uma novidade, hoje uma prática comum no mercado televisivo.

Mas apesar de todas as virtudes de Armando, cantadas em prosa e verso nos depoimentos de personalidades das artes, da política e do jornalismo, não dá pra esquecer que ele esteve à frente do jornalismo mais comprometido do Brasil: o que foi praticado pela Globo durante os anos da ditadura militar. O JN era conhecido como “o porta-voz do regime”. As ordens que emanavam dos governos militares eram obedecidas sem questionamento. Não me lembro, sinceramente, de ter visto por parte dos profissionais da Globo alguma tentativa de desobediência ou de driblar a censura, como fez por exemplo o Jornal do Brasil, que saiu com aquela capa histórica no dia seguinte à decretação do AI-5, 13 de dezembro de 68, iludindo os militares fardados que ocuparam as redações assim que terminou a leitura do ato discricionário.

Eu estava na TV Globo durante o primeiro mandato de Leonel Brizola à frente do governo do Estado do Rio. Entrei em maio de 83, pouco depois da posse do novo governo, e o jornalismo da Globo passava por uma grave crise de credibilidade, com seus repórteres e carros ameaçados nas ruas pela população. Pesava sobre a emissora a acusação de, junto com a Proconsult, empresa contratada pelo TRE para apurar os votos da eleição direta para governador do Estado, em 1982, tentar fraudar o resultado para dar a vitória a Moreira Franco, o candidato do regime militar, apoiado pela família Marinho. Por engano ou má-fé, a emissora divulgava números que não refletiam a verdade da apuração.

Em 1984, no episódio das Diretas Já, onde atuei como narrador em off no comício da Candelária, no Rio, a postura da Globo foi a de ignorar por completo os movimentos populares que cresciam em todo país. Mas não bastava ignorar, era proibido usar a palavra “diretas” em qualquer situação, mesmo como notícia, contra ou a favor. Até que a pressão popular tornou-se irresístivel e a emissora foi obrigada a render-se ao apelo da população brasileira.

Em 1989, no segundo e último debate entre Collor e Lula nos estúdios da TV Bandeirantes, no Morumbi, quando eu tinha acabado de deixar a Globo e estava lá representando a Manchete, observei que Lula estava visivelmente cansado e abatido. Além do esforço da reta final da campanha, ele tinha sido acusado no programa de Collor por uma ex-namorada, Mirian, de tentar convencê-la a abortar uma criança (a filha dele, Lurian). Depois se soube que a estratégia (financeira) de colocar a enfermeira Mirian no foco da mídia a três dias da votação partiu de Leopoldo, o irmão de Collor e muito amigo dos Marinho. A família Collor é dona da emissora que retransmite a programação da Globo em Alagoas. Toda essa lembrança histórica é para dizer que Lula foi mal naquele segundo debate, mesmo assim a Globo, na edição da matéria, destacou os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Os que têm boa memória hão de se lembrar da severa campanha do Jornal Nacional contra o então ministro da Justiça do governo Figueiredo, Ibrahim Abi-Ackel, que ousou impedir a liberação de uma carga de equipamentos supostamente contrabandeados destinados à TV Globo.

Durante várias edições, o JN acusou o ministro de envolvimento no contrabando de pedras preciosas, no qual Abi-Ackel não teve, comprovou-se depois, nenhuma participação. Mas pouca gente lembra disso. É provável até que os jovens executivos da Globo “desconheçam” o fato ou, se souberem, contem uma história diferente. Armando Nogueira estava à frente do jornalismo em todos esses episódios nebulosos que narrei com absoluta fidelidade. De uma maneira ou de outra compactuou com esse tipo de jornalismo corporativo e subserviente.

Talvez tenha faltado em Armando a coragem de assumir sua responsabilidade como diretor de jornalismo da Globo que notoriamente era o braço da ditadura militar na mídia. Sua memória estaria resgatada para sempre se um dia ele tivesse contado toda a verdade, que apenas cumpria ordens que vinham do oitavo andar, mais precisamente da sala do Doutor Roberto. Armando, como eu e todos os que trabalharam na emissora nos anos de chumbo, fomos cúmplices do regime. Uns por total desinteresse político, outros por opção ideológica, outros ainda por necessidade profissional.

Deixo aqui minha homenagem ao Armando Nogueira, poeta, cronista e escritor de texto sensível. E um adjetivo que ainda não ouvi nos inúmeros depoimentos sobre ele: um sedutor irresistível.

Foto: Ultra leve, by Dudz5150, Flickr, Creative Commons. 11/04/2007